01/11/2013


ROBÔS NÃO PODEM AMAR!

O Gene?


Egoísta
O gene define nosso comportamento.
Ainda que tenhamos o livre arbítrio, não podemos contrariar as diretrizes do gene, as leis da genética (como as leis da robótica do Isaac Asimov), impunes.

Altruísta
Só conseguimos ser altruístas quando estamos seguros, ou seja, não existe ameaça para o nível mais alto de exigência genética. Quando desrespeitamos essa ordem, precisamos de muita força moral e sacrifício pessoal para enfrentar as situações.

Atropelado
Para se adaptar o gene precisa de várias gerações, desde que as condições não variem muito de geração para geração, de forma a permitir um “aprendizado” do gene.

As mudanças que estamos promovendo no ambiente, modo de vida, processos etc., estão sendo muito mais rápidas do que o gene pode acompanhar, então ele está sendo atropelado pela evolução ao redor.

O gene evolui também no indivíduo, mas de forma quase imperceptível nos humanos, tanto que o DNA serve como identidade. Em alguns seres vivos, com as bactérias, essa evolução no indivíduo é mais intensa.

A evolução no indivíduo pode ser comparada à conformação de um carro ao seu dono (desgaste, deformações etc.). Ao dirigir o carro de outra pessoa, ainda que da mesma marca e modelo, achamos estranho.

E essa evolução no indivíduo, já ínfima, está se reduzindo. Voltando ao paralelo com os carros, quando era tudo mecânico a adaptação era maior, agora com os sistemas by-wire, fica mais difícil, porque a força física diminuiu drasticamente e os materiais são mais duráveis e permanentes, portanto, os desgastes, deformações etc. diminuíram muito e as ações são “interpretadas” por um computador que aciona os diversos sistemas do carro através de servomecanismos. Com isso a nossa intenção é filtrada por um interpretador que reduz imensamente a complexidade dos nossos movimentos para algo como “sim ou não”, “quer ou não quer”.

Da mesma forma a comunicação humana está cada vez mais “intermediada”, os “smyles” são um ótimo exemplo, já percebeu como é difícil escolher um em certas situações.


Imaginemos um dispositivo simples, um interruptor de luz, por exemplo: Uma alavanca ou tecla que, quando mudamos sua posição, fecha um circuito elétrico e faz uma lâmpada acender. Esse é um bom ponto de partida para entendermos como funcionam os sistemas.

Qual o grau de liberdade que esse sistema tem?

Aparentemente nenhum, ou seja, uma vez acionado o interruptor a luz se acenderá. Claro que, para efeito do nosso exercício, sempre admitiremos que tudo está funcionando perfeitamente.

Então, vamos sofisticar um pouco. Imaginemos um sensor de presença junto à nossa lâmpada, permitindo que ela se acenda apenas na presença de alguém no ambiente.

Agora o nosso sistema já tem um grau de liberdade, porque mesmo que eu ligue o interruptor ele pode decidir se permite ou não o acendimento da lâmpada, em função da informação ‘presença de alguém no ambiente’.

Muito bem, posso então ligar o interruptor à noite, permitindo ao sistema acender ou apagar a luz conforme haja presença no local e desligá-lo durante o dia.

Mas, se eu quero ligar de noite e desligar de dia, devido à existência ou não de iluminação natural suficiente, por que não introduzir, no lugar do interruptor, um sensor de luz.

Aí eu estarei delegando mais uma tarefa ao sistema, deixando que ele decida se a lâmpada deve ficar acesa ou apagada em função de duas condições, existência de iluminação natural e presença.

Bem, agora que sabemos como programar um robô – sim porque esse sisteminha chinfrin é um robô, simplesinho, mas é – então, já que sabemos as bases da programação, podemos avaliar como deve ter sido programado o ASIMO da HONDA, por exemplo:   New Honda Robot ASIMO

Trata-se de elaborar rotinas similares às que usamos para nossa lâmpada, só que cada vez mais complexas, de forma a atender àquilo que queremos que o nosso robô faça.

Entretanto, por mais complexa que seja a programação que possamos imaginar sempre limitará nosso robô às opções previstas pelo programador.

Se o nosso sisteminha não reagia a comandos de voz, por exemplo – lembram-se: ele só percebia luz e presença – não vai adiantar gritar com ele, da mesma forma que o ASIMO não reage a muitas coisas e nem pode decidir, por exemplo, se algo é feio ou bonito, pois não possui a lógica necessária para isso.


Hoje sabemos que somos filhos e reféns de uma programação, de um código determinado pela sequência genética de nosso DNA, portanto, me parece não haver dúvida sobre isso: estamos limitados a essa programação.
01/11/2013

Viver é paradoxal

A vida é um processo comandado pelo gene egoísta que é, por natureza, selvagem. Tudo que ele quer é garantir a sobrevivência e a expansão da espécie, ainda que à custa do espécime.

O problema é que nós somos os espécimes.

Achamos que, seres conscientes que somos, temos nosso livre arbítrio para decidir viver como quisermos, entretanto não é bem assim, somos reféns do nosso gene. Nossa liberdade vai até os limites do que ele nos permite e esse condicionamento aflora através de nossas ‘qualidades’ e ‘defeitos’[1].

Nossos ideais de igualdade, justiça, paz etc., infelizmente não são naturais, são fruto da nossa necessidade de colocar tudo sob o nosso 'domus'. Tentamos domesticar o bicho para acomodá-lo sob nossas necessidades como indivíduos, não como espécie.

Daí vivermos sempre às voltas com o paradoxal, com situações aparentemente ilógicas ou, pelo menos, difíceis de aceitar.

Tenho um amigo que serve como exemplo desse tipo de comportamento paradoxal.

Nos conhecemos na faculdade, inclusive morou comigo na mesma república e depois de formados foi meu sócio em um pequeno negócio. Apesar de nossa amizade que era e ainda é bem real, eu sempre senti uma grande dificuldade para lidar com ele, principalmente em se tratando de assuntos profissionais.

Era o que se pode chamar de ‘genioso’, por vezes dava vontade de desistir da discussão devido à grande resistência que ele tinha de aceitar argumentos contrários à sua ideia. Por outro lado era ‘genial’, tinha uma inteligência brilhante e uma capacidade de trabalho inacreditável.

Coloquei as palavras “genioso’ e ‘genial’ para destacar que costumamos exprimir esse tipo de caráter através de ideias ligadas ao ‘gene’, inclusive dizemos ‘pessoa de gênio assim, gênio assado.

Nos meus muitos anos de convivência com ele cheguei à conclusão que os dois aspectos, o positivo e o negativo, da personalidade dele, eram duas faces da mesma moeda, anulando uma a outra se anularia ao mesmo tempo.

Existem casos em que isso ocorre: uma pessoa se sente pressionada a coibir certos impulsos e se tornar menos agressiva e acaba por se tornar uma pessoa apática, sem vontade.

Assistindo a série The Borgias pude acompanhar uma interpretação cinematográfica da história do renascimento na Europa.

Nesse período, século XV, existiu um personagem, no caso o papa Alexandre VI (Rodrigo Lanzol Borgia), extremamente contraditório. Por um lado um líder inescrupuloso que fazia tudo pelo poder, por outro o responsável pelas mudanças mais importantes no mundo ocidental, patrocinando o início do renascimento.

O fato é que os gênios são aqueles que sabem sintonizar a sua intuição, conectar-se com ela perfeitamente, e a intuição está em um nível quase diretamente ligado ao ‘bicho’, ao selvagem. Entretanto continuam sendo seres sociais e preservando certas ‘qualidades’ relativas à convivência, à vida cotidiana, daí o comportamento aparentemente ‘esquizofrênico’ das pessoas geniais.

Viver é manter Yin e Yang em equilíbrio instável. É como andar: quase cair e se recuperar sucessivamente.

Nada tem sentido e cada um precisa encontrar um sentido para si! Estabelecer um equilíbrio, ainda que instável, entre a falta de sentido, o ceticismo e a fé, a busca de “um” sentido para nossa vida.

Ceticismo e Fé convivendo, não em harmonia, mas em permanente disputa, confrontação e, principalmente, discussão.


Mais uma vez a questão do global e do local: uma apenas para filosofar, a outra para viver.
                   O frio é elegante, sóbrio, distinto, silencioso, meditativo, sério, nostálgico, solitário...
O calor é... escrachado!!




[1] Vale a pena relembrar que qualidade e defeito, principalmente se referidas ao caráter humano, não são opostos. De fato, o que chamamos ‘defeito’ nada mais é do que um desequilíbrio entre nossas qualidades ou uma ‘qualidade’ exacerbada. Ex.: Egoísmo é excesso de amor próprio; Vaidade é excesso de autoaceitação etc.

Nós somos“NÓS”!

14/12/2013

Eu vejo o universo como uma grande rede, da qual somos os nós, ou seja somos o resultado de nossas relações com os outros e com as demais coisas.
Uma rede é uma trama feita de fios e nós.
Os nós nada mais são que a interação dos fios.
Essa visão de mundo é muito antiga.
Os humanos anatomicamente modernos originaram-se na África há cerca de 200 mil anos, atingindo o comportamento moderno há cerca de 50 mil anos.
A filosofia ocidental surgiu na Grécia antiga no século VI a.C., a existência do Hinduísmo data de 4.000 a 6.000 mil anos a.C., o taoismo tem sua origem entre 2.697 a.C. e 2.597 a.C., portanto estamos falando de 3.000 a 8.000 anos de filosofia e todas as correntes filosóficas ensinam, de alguma forma, o mesmo princípio, a ideia de contínuo, de unidade do cosmo, de ligação entre todas as coisas, matéria, energia. Entretanto não estamos convencidos disso.
Uma vez, discutindo essas questões com o Guilherme, meu parceiro no conto “A Porta” e amigo de algumas décadas, falava desse paradoxo que é estudar, pesquisar, desenvolver novas tecnologias, aparentemente para nada, só para descobrir que a vida simples, como a do índio, é suficiente para ser feliz, fazendo essa loucura chamada “civilização” parecer uma “corrida atrás do rabo”.
Por outro lado, constatamos que esse mesmo índio, apesar de parecer estar num estágio de qualidade de vida e relação com a natureza mais saudável e até mais evoluído que nós, os homens civilizados, é também o mais facilmente corrompível, podendo ser seduzido por espelhinhos (hoje em dia, os espelhinhos das Hilux).
Ouvindo minhas duvidas ele explicou (conforme seu modo ‘espírita’ de ver o mundo):   – Eles (os índios) vivem assim, mas não tem consciência disso. Nós estamos percorrendo um caminho de aprendizado, experimentando e aprendendo, como fazem as crianças, de forma a atingir um modo de vida que, ainda que venha a ser parecido com o dos índios, será muito mais consolidado, porque baseado na consciência desse estado.
Pois não é que no século XX a ciência começou a esbarrar em conceitos já intuídos pelos filósofos há muitos séculos:
Como vejo o mundo                                                                                                    Albert Einstein
A influência de Maxwell sobre a evolução da realidade física
...
Bem depressa, em compensação, tentarão explicar pela teoria do campo os pontos materiais e sua inércia, com o auxílio da teoria de Maxwell, mas esta tentativa fracassará.
Maxwell obteve resultados importantes particulares, por trabalhos que duraram toda a sua vida e nos setores mais importantes da física. Mas, esqueçamo-nos deste balanço, para estudar apenas a modificação de Maxwell, quando chega a conceber a natureza do real físico. Antes dele, eu concebo o real físico — isto é, eu represento para mim os fenômenos da natureza desse modo — como um conjunto de pontos materiais. Quando há mudança, as equações diferenciais parciais descrevem e regulam o movimento. Depois dele, eu concebo o real físico representado por campos contínuos, não explicáveis mecanicamente, mas regulados por equações diferenciais parciais. Esta modificação da concepção do real representa a mais radical e mais frutífera revolução para a física desde Newton.
...
Se você desmanchar uma rede como faz para guardar os nós?
Não dá pra separar, é tudo junto e misturado.
Sem censura nem patrulhamento, lembrando que a perfeição é uma me... ta!
Ninguém é um estúpido perfeito, nem mesmo o que acredita em perfeição,
apesar da perfeição ser uma estupidez!
Nós não existiríamos se Deus não desse uma chance ao erro.
O acaso vai me proteger quando eu andar distraído.

Promessas e realidades

Interessante avaliar nossa atitude ante a percepção do tempo: passado, presente e futuro. Lembrando que estamos falando de ‘percepções’ apenas, não da realidade objetiva.
“A tecnologia seduz pelo que promete!”
A distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente.
Albert Einstein      
Essa frase reflete um sentimento que todos nós percebemos. Sempre queremos acreditar que ‘aquela tecnologia’ vai melhorar nossa vida (futuro), entretanto ao adquiri-la constatamos que não é bem assim: ela traz novidades sim, mas logo percebemos que nossa percepção da vida não mudou muito.
“O sofrimento aterroriza pelo que promete!” Outra forma de dizer o mesmo.
Se enfrentássemos os sofrimentos apenas pelo que eles causam de dor ou desconforto, com certeza sofreríamos muito menos, mas a angústia de acharmos que aquilo poderá ter consequências graves, seja mais sofrimento, seja como sequelas, é que realmente faz sofrer.
Da mesma forma sempre temos a impressão que antes era tudo melhor, o que de certa forma explica um pouco a frustração com o novo, pois a percepção da realidade é como a percepção da esposa, que vem com todas as mazelas do dia a dia, quando comparada com a percepção da amante, sempre cheirosa e gostosa quando a encontramos.
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém...                                                    mas é você que ama o passado e que não vê...                                                                Belchior
Nem esperar demais, nem se desesperar, eis a saída!
O passado é história,
o futuro é mistério e
hoje é uma dádiva.
Por isso é chamado presente!
Provérbio Chinês
Viver o presente! Simples assim, dando sempre uma chance ao erro. Tem que confiar e usar a coragem para ser livre. A verdadeira liberdade é essa, sem pré-ocupações nem frustrações.

entelékia

                         01/11/2013

LIBERDADE
a trilogia condensada 
  
Compromisso?
O que é isso?
É uma viagem,
    com Coragem,
A bordo da Confiança,
    com Esperança,
Rumo à Competência
   
da Independência!

                         Parceria não autorizada
                Lincoln Harten / Pedro McCarty



COMPROMISSO, QUE É ISSO!?*

COMPROMISSO
É UMA VIAGEM

ONDE:

NAVEGAR É PRECISO
&
VIVER NÃO É PRECISO

E COMO A SABEDORIA
INDICA:

COMANDO,
HÁ QUE SE TER
PARA ISSO...

NESTA HORA:

CORAGEM
NA BAGAGEM
É UMA PEDIDA



VADA BORDO
DA CONFIANÇA
CHEIO DE
ESPERANÇA.

RUMO A
COMPETÊNCIA

NA LIBERDADE
QUE O SONHO
HUMANO
ALIMENTA.

QUE NÃO HÁ
NINGUÉM QUE
EXPLIQUE

E NINGUÉM QUE
NÃO ENTENDA.

*PARCERIA DE GENTE BOA NÃO SE AUTORIZA:

LINCOLN ARTE DAS CANDONGAS
PEDRO MARCART DE OLIVEIRA FERREIRA

FERNANDO GRANDE PESSOA
OU
CAETANO ESSE VELOSO
COSTA CONCÓRDIA
CECÍLIA GRANDE MEIRELLES



enteléquia[1]
e o Sentido da Vida


Tomei conhecimento desse termo através do meu sócio George Barcat, o filósofo, que já usava como ‘marca’ de seu software de gerenciamento e acabou sendo o nome de nossa empresa, embora em versão fantasia:

Aristóteles fala de 'enteléquia' em contraposição à teoria platônica das ideias e defende que todo ente se desenvolve a partir de uma causa final interna a ele e não, como afirmava Platão, por razões ideais externas. Enteléquia seria, portanto, a tensão de ‘algo’ para se realizar segundo leis próprias, passando da potência ao ato.
No princípio era o verbo...
João, I
A mãe de Deus é uma virgem porque representa a portadora da enteléquia da espécie, não apenas a replicadora de um código genético pré-existente, mas a matriz de uma nova espécie, fruto da inseminação de um anjo mensageiro, cuja mensagem é o código genético, a enteléquia, o verbo primordial.

Goethe, o pensador alemão, ensinava que nossa tarefa é aquela que estiver diante de nós a cada momento e a ela devemos dedicar nossos melhores esforços. Uma vez concluída, uma nova tarefa se apresentará e após virá outra e assim por diante. Isso não significa, de forma alguma, sermos levados pelo vento, sem direção, ao contrário, significa que precisamos estar nos preparando permanentemente para perceber o que Deus quer de nós.

Muito bem, mas qual o sentido disso tudo, afinal o que “Deus”, seja lá quem ou o que seja, quer de nós? Temos dificuldade até de aceitar a própria existência de um deus, quanto mais de perceber o sentido da vida. Deus, aquele que emitiu o verbo, o que sonhou a enteléquia de tudo?

Se me perguntarem o que Deus significa eu poderia dizer:

– Você tem tempo...? Parafraseando Cortella, e desfiaria toda aquela história sobre a infinitude do universo ou do multiverso, a grandiosidade e multidimensionalidade do cosmo, os prodígios da natureza e da vida etc. etc. etc.
Ou:    
– É o que tem praquém do além, na terra dadonde vive os môrto! Como diria Bento Carnêro, o vampiro brasileiro.
Ou ainda:     
– Ao infinito e além...!
Buzz Lightyear.
Monty Python fez uma tentativa de esclarecer-nos em “O Sentido da Vida”, com sucesso bem discutível, eu diria, mas o filme é muito bom, eu recomendo.

De qualquer forma, à parte essa discussão teológica, há uma pergunta que não quer calar: Qual é o sentido da vida? Ora bolas!
Bem... EU NÃO SEI! ORA BOLAS!
É uma dessas coisas que são da competência de Deus, não minha!
Mas, vamos voltar ao nosso assunto: O Sentido da Vida!
Mito de SísifoSísifo, rei da Tessália e de Enarete, era o filho de Éolo. Fundador da cidade de Éfira, que mais tarde veio a chamar-se Corinto, e também dos jogos de Ístmia (ou Ístmicos). Sísifo tinha a reputação de ser o mais habilidoso e esperto dos homens e por esta razão dizia-se que era pai de Ulisses. Sísifo despertou a ira de Zeus quando contou ao deus dos rios, Asopo, que Zeus tinha sequestrado a sua filha Egina. Zeus mandou o deus da morte, Tanatos, perseguir Sísifo, mas este conseguiu enganá-lo e prender Tanatos. A prisão de Tanatos impedia que os mortos pudessem alcançar o Reino das Trevas, tendo sido necessário que fosse libertado por Ares. Foi então que Sísifo, não podendo escapar ao seu destino de morte, instruiu a sua mulher a não lhe prestar exéquias fúnebres. Quando chegou ao mundo dos mortos, queixou-se a Hades, soberano do reino das sombras, da negligência da sua mulher e pediu-lhe para voltar ao mundo dos vivos apenas por um curto período, para castigá-la. Hades deu-lhe permissão para regressar, mas quando Sísifo voltou ao mundo dos vivos, não quis mais voltar ao mundo dos mortos. Hermes, o deus mensageiro e condutor das almas para o Além, decidiu então castigá-lo pessoalmente, infligindo-lhe um duro castigo, pior do que a morte. Sísifo foi condenado para todo o sempre a empurrar uma pedra até ao cimo de um monte, caindo a pedra invariavelmente da montanha sempre que o topo era atingido. Este processo seria sempre repetido até à eternidade.
Albert Camus, introduz sua filosofia do absurdo: o do homem fútil em busca de sentido, unidade e clareza no rosto de um mundo ininteligível desprovido de Deus e eternidade. Será que a realização do absurdo exige o suicídio?                                                                Camus responde: – "Não. Exige revolta".

E agora, ficou claro? ...
É, acho que não estamos chegando a lugar nenhum, mas acredito que existem outras abordagens possíveis.

Vejamos: eu sempre brinco com essa questão dizendo:                                                     – Estou aqui a passeio, não a negócios!

“... todo ente se desenvolve a partir de uma causa final interna a ele... “
É isso, acho que sempre acreditei nisso, mesmo antes de saber.

Acho que, sejamos o que sejamos - essa é uma coisa que nunca conseguiremos explicar - nós, cada um de nós, decidimos estar aqui. Antes mesmo de existir.

Não estou propondo algo como o espiritismo ou outra teoria reencarnatória. Se fosse para adotar uma ideia desse tipo, ficaria com o Taoísmo, que explica as coisas, inclusive nós, como emergentes do nada e retornando para o nada – o Tao.

O que estou dizendo é que a nossa existência se deve a uma decisão, uma decisão que tomamos sabe-se lá em que nível, mas que nós é que tomamos. Essa visão torna as coisas mais plausíveis, pelo menos para mim.

Agora, vejam este vídeo e depois me digam se a vida tem sentido para esse cara.
“... nossa tarefa é aquela que estiver diante de nós naquele momento e a ela devemos dedicar nossos melhores esforços.”
Pois é, talvez isso seja “FÉ”, não sei, só sei que, qualquer que seja a “verdade”, não podemos nos esquecer que o que vemos é uma interpretação dessa “verdade”, já que, se repararmos bem, até a memória não passa de imaginação com álibi.

Alegoria da cavernaImaginemos um muro bem alto separando o mundo externo de uma caverna. Na caverna existe uma fresta por onde passa um feixe de luz exterior. No interior da caverna permanecem seres humanos, que nasceram e cresceram ali.Ficam de costas para a entrada, acorrentados, sem poder mover-se, forçados a olhar somente a parede do fundo da caverna, onde são projetadas sombras de outros homens que, além do muro, mantêm acesa uma fogueira. Pelas paredes da caverna também ecoam os sons que vêm de fora, de modo que os prisioneiros, associando-os, com certa razão, às sombras, pensam ser eles as falas das mesmas. Desse modo, os prisioneiros julgam que essas sombras sejam a realidade.Imagine que um dos prisioneiros consiga se libertar e, aos poucos, vá se movendo e avance na direção do muro e o escale, enfrentando com dificuldade os obstáculos que encontre e saia da caverna, descobrindo não apenas que as sombras eram feitas por homens como eles, e mais além todo o mundo e a natureza.Caso ele decida voltar à caverna para revelar aos seus antigos companheiros a situação extremamente enganosa em que se encontram, correrá, segundo Platão, sérios riscos - desde o simples ser ignorado até, caso consigam, ser agarrado e morto por eles, que o tomarão por louco e inventor de mentiras.Platão não buscava as verdadeiras essências na simples Phýsis, como buscavam Demócrito e seus seguidores. Sob a influência de Sócrates, ele buscava a essência das coisas para além do mundo sensível. E o personagem da caverna, que por acaso se liberte, como Sócrates correria o risco de ser morto por expressar seu pensamento e querer mostrar um mundo totalmente diferente. Transpondo para a nossa realidade, é como se você acreditasse, desde que nasceu, que o mundo é de determinado modo, e então vem alguém e diz que quase tudo aquilo é falso, é parcial, e tenta te mostrar novos conceitos, totalmente diferentes. Foi justamente por razões como essa que Sócrates foi morto pelos cidadãos de Atenas, inspirando Platão à escrita da Alegoria da Caverna pela qual Platão nos convida a imaginar que as coisas se passassem, na existência humana, comparavelmente à situação da caverna: ilusoriamente, com os homens acorrentados a falsas crenças, preconceitos, ideias enganosas e, por isso tudo, inertes em suas poucas possibilidades.A partir da leitura do Mito da Caverna, é possível fazer uma reflexão extremamente proveitosa e resgatar valores de extrema importância para a Filosofia. Além disso, ajuda na formulação do senso crítico e é um ótimo exercício de interpretação.
Quanto a mim, posso dizer que sinto ter “decidido” estar aqui, não sei como nem onde, mas sei que foi por querer essa experiência, querer viver e interpretar essa vivência, tanto quanto possível, mas duas coisas estavam presentes: Liberdade e Compromisso, a primeira como o valor mais desejado, porém o segundo como aquilo que não pode ser rompido ainda que a custo da primeira.

Nossa mente vê até certos limites, a partir daí começa o mistério e o mistério só pede SER SAGRADO, o SER que você melhor aceitar, mas que SEJA SAGRADO.

Sagrado é respeitar os outros pelo simples fato de nós sermos o ‘outro’ para eles.

Entender que nossas verdades podem ser absurdas para o outro, como podemos achar absurdas as ideias de alguém.

Perceber que lutar por nossas ideias é apenas isso: lutar e não exterminar o que pensa diferente. Lutar por ideias é convencer, não vencer.

Entretanto lutar pelos nossos direitos pode chegar a extremos de violência como as guerras.

As guerras não são aberrações, são perfeitamente possíveis e até prováveis, afinal todos nós lutamos para tirar do mundo mais do que ele tira de nós, um mundo em que uma população de expoente nove e crescendo exponencialmente, compete por recursos finitos e finando, mas mesmo as guerras devem ser sagradas, devem obedecer a limites que nos mantenham dignos e conservando nosso auto respeito, sob pena de perdermos a coesão como espécie humana.





[1] en='dentro'+telos='finalidade':entelos='finalidade interior'+echein=‘ter’: entelékheia =‘ter finalidade interior’

CONFIANÇA
Ter ou merecer?
20/09/2013

O que determina a estabilidade social?

Ainda que sociedades permanentemente estáveis não existam, sabemos que algumas sociedades são melhores que outras. Então, o que determina essa diferença? Capitalismo, socialismo, menos corrupção, menos violência, enfim: qual o caminho? Pelo que lutar?

Para explicar como cheguei às minhas conclusões e, possivelmente, ajudar na compreensão dessas conclusões, preciso fazer um pequeno retrospecto:

Tudo começou com uma grande explosão...
... quando eu era jovem achava que a política era uma coisa sem interesse, como acho que é normal nessa fase da vida. Acompanhava o coro geral antiditadura por ser o que a turma esperava de mim e também por ser mais uma questão de defesa da liberdade do que uma opção política.

Quando comecei a pensar em política, ainda estávamos em plena ditadura militar e a “moda” era ser de esquerda, dessa forma comecei a ser esquerdista da mesma forma que me tornei corintiano: puro coração, sem nenhuma causa lógica ou racional[1].

Ocorre que, ao contrário da minha paixão corintiana, a minha opção ideológica precisava ser justificada e comecei a ler a respeito do assunto. Os óbvios: Marx, Prestes, Rosa Luxemburgo e outros não tão óbvios: Florestan Fernandes, Paulo Freire e assim por diante.

Dessa forma fui elaborando minhas ideias sobre o socialismo, mas continuava considerando essa uma discussão secundária, pois achava, como ainda acho, que a evolução da espécie humana passa mais pelo indivíduo do que pelos sistemas políticos ou econômicos.

Sendo assim, se não dava importância à cor do sistema na evolução da humanidade, por que mantive a tendência pela esquerda?

Além da “moda” que, em certo grau, passou com o fim da ditadura, acho que essa inclinação pelo revolucionário (meio ‘festivo’ é claro) se deve a uma visão um tanto “romântica” que tenho do comportamento humano.

Sempre vi com reservas o pragmatismo da visão de direita, baseada na premissa do gene egoísta que impele o homem a buscar resultados apenas quando motivado por interesses próprios. Como já comentamos, tanto o capitalismo como a democracia se baseiam, fundamentalmente, nesse conceito.

Isso não significa que o indivíduo não possa ser altruísta, mas que não somos altruístas de forma incondicional, ou seja: pensamos nos outros quando nossos interesses maiores estão satisfeitos, caso contrário lutamos por satisfazer aquilo que julgamos mais importante para nós.

Esses valores podem variar de pessoa para pessoa: para alguns pode ser riqueza e poder, para outros a defesa da família e dos filhos ou ainda a defesa de uma causa idealista. De qualquer forma, sempre defenderemos os nossos valores antes dos interesses do próximo, esse é o condicionamento a que nos submete o gene egoísta: primeiro a defesa do indivíduo, depois do grupo e, só ao final, da espécie.

Dessa forma o “direitista” é sempre um defensor do “cada um por si”, uma espécie de “laissez faire” que podemos modificar para o “live and let die”.

Já o militante de esquerda é, por natureza, um sonhador. Um idealista que se joga de corpo e alma na missão de salvar o mundo, arriscando-se a experimentar novas ideias e assumindo a responsabilidade pelas consequências. Sempre buscando, pela via da ação, um mundo mais justo e com menos sofrimento para todos, não só para os mais capazes.

A história

O fato é que as experiências que se desenrolaram ao longo da história lançaram outras luzes sobre essa questão. Hoje, como espero ter ficado claro no texto “LIBERDADE”, estou convencido que o gene egoísta é mais forte do que os ideais e, portanto, o socialismo que conhecemos não é viável.

Por outro lado, isso não impede que busquemos formas de organização que reduzam as desigualdades e o sofrimento.

Minha utopia seria o anarquismo, mas toda vez que penso nisso me lembro do conto ‘O banqueiro anarquista’[2] e deixo pra lá.

Desde muito cheguei à conclusão óbvia de que qualquer sistema funciona bem em uma sociedade evoluída, ou seja, onde as pessoas tenham alto grau de consciência e discernimento e, por outro lado, não há ideologia, lei ou polícia que dê jeito em uma sociedade em que essas qualidades não estiverem presentes.

Ao comparar os vários países do mundo que adotam o sistema capitalista e democrático, com aqueles onde se implantou o socialismo totalitário, da época da União Soviética e da China de Mao Tse Tung, por exemplo, verificamos que o capitalismo democrático não parece nada ruim.

Eu tive contato estreito e diário com um fugitivo da “cortina de ferro”, que morou em minha casa por um ano. Manol Petkov, ex-colega de trabalho e amigo, búlgaro, uns 10 anos mais velho que eu, abandonou mãe, irmão e família em seu país, porque não suportava a opressão de viver sem nenhuma liberdade e com as dificuldades de um regime de escassez de quase tudo.

Fugiu, arriscando tudo, ficou asilado na Itália e dali foi para a Suíça – devido a essa experiência sofria de um trauma que o perturbou pelo resto da vida.

Trabalhou na Suíça em uma empresa chamada ASEA, onde teve notícias do Brasil (essa empresa tinha filial por aqui) e de lá decidiu vir para o nosso país. Era uma testemunha viva do regime socialista totalitário em que passou grande parte da vida adulta.

Através da convivência com ele, a quem devo muito da minha formação profissional, pude ter uma ideia bastante boa de como era a vida nos países da ‘cortina de ferro’, como era chamado o bloco soviético, algo que deixava no chinelo a nossa repressão militar.

Na mesma época, anos 70 e 80, tive a oportunidade de conviver com dois engenheiros franceses, Mr. Lucièn Bridier e Mr. Bernard Gardin, o primeiro com mais de 60 anos e o segundo da minha idade. Eu era o único brasileiro da equipe e convivemos diariamente, durante um ano, viajando pelo estado de São Paulo em visita a instalações ferroviárias. Também trabalhei com portugueses, alemães e ingleses.

Através desses contatos pude ter uma ideia bastante boa de como era viver em países capitalistas democráticos, no caso, europeus. Aí, é inevitável bater uma dúvida e tanto: será justo criticar esses sistemas em que, pelo menos, a liberdade é preservada, permitindo aos indivíduos defender seus interesses bem como suas ideias sem sofrer excessiva repressão do estado ou da polícia?

Geopolítica

Vamos analisar como é o mundo hoje ou, pelo menos como era até a poucos anos, antes que a crise monetária mundial bota-se tudo abaixo, porque ‘onde falta o pão, todo mundo grita e ninguém tem razão’.

Partindo do Brasil, que será nossa referência (óbvia), vamos selecionar alguns países para análise:
  • O Chile, que é uma das experiências de capitalismo democrático mais bem sucedida da América Latina.
  • Os demais países da América Latina.
  • Os Estados Unidos.
  • O Canadá e a Austrália.
  • Um primeiro grupo de países da Europa Ocidental: Inglaterra, França, Alemanha e os países nórdicos.
  • Um segundo grupo de países da Europa Ocidental: Itália, Portugal/Espanha.
Estou, propositalmente, excluindo a África, uma vez que pouco conhecemos a situação desse continente, além de saber que existe ainda muita pobreza, com a prevalência numérica do negro, ainda primitivo, sendo explorado pelo branco ou não podendo participar da partilha das riquezas por não incorporar a cultura do branco, o Oriente Médio, que sabemos viver seríssimos conflitos ancestrais aparentemente insolúveis e extremamente complexos, a Arábia, com países muito atípicos, misturando monarquias socialistas baseadas na riqueza do petróleo, com ditaduras nacionalistas apoiadas por superpotências que, por seu lado, também representam um grande ponto de interrogação na política mundial.

Excluí também a Ásia que, com países em desenvolvimento como a Índia, que tem na pobreza quase um objetivo de vida, coisa muito difícil de entender, a China com seu capitalismo comunista impensável há algumas décadas, os países do sul da Ásia, com economias capitalistas peculiares como a Coréia do Sul, Taiwan, Singapura, Hong-Kong, limítrofes com totalitarismos como a Coréia do Norte, países de terceiro mundo como o Vietnã, enfim, uma loucura total. O país mais ‘ocidental’ desse bloco seria o Japão, mesmo assim tem uma cultura tão diferente da nossa que ficaria difícil estabelecer uma comparação.

Da mesma forma, excluí os países do leste europeu, que vem da experiência do socialismo totalitário da União Soviética, e que ainda não se podem caracterizar como democracias sólidas e bem desenvolvidas.

O mundo Capitalista Democrático

Podemos considerar que fizemos do mundo uma experiência capitalista democrática, uma vez que o socialismo totalitário está praticamente, senão totalmente, extinto, restando a Coréia do Norte e algo mais que nem saberia dizer (não me venham falar de Cuba!).

Então nós temos os capitalistas democráticos puros: Estados Unidos, por exemplo, a socialdemocracia, como a Alemanha e monarquias parlamentaristas, como Suécia e Holanda. O Brasil se inclui entre os países capitalistas democráticos, assim como os demais países da América Latina.

Cada um desses países exerce maior ou menor controle sobre a economia, na intenção de reduzir os desequilíbrios. Essas intervenções, ainda que temporariamente bem sucedidas, acabam por cobrar seu preço na forma de crises cíclicas. O sistema capitalista não convive bem com intervencionismos.

Ao comparar esses países e classifica-los pela qualidade das suas instituições, respeito às liberdades e ambiente para se viver, chegamos ao seguinte:
  • O Canadá e a Austrália: pouca interferência do estado na atividade econômica, mas com bons sistemas de seguridade social. São lugares em que parece haver boa organização social, grande equilíbrio, segurança para os indivíduos e instituições confiáveis.
  • O primeiro grupo de países da Europa Ocidental: Inglaterra, França, Alemanha e os países nórdicos: alguma interferência reguladora do estado, principalmente nas socialdemocracias, com bons sistemas de seguridade social. Apesar das diferenças culturais e vários graus de organização, têm um bom equilíbrio, segurança razoável e instituições confiáveis.
  • O segundo grupo de países da Europa Ocidental: Itália, Portugal/Espanha: estados que tradicionalmente exercem mais interferência na economia, mantendo bons sistemas de seguridade social. Têm uma desvantagem em relação ao primeiro grupo no que diz respeito à organização, mas ainda conseguem algum equilíbrio, segurança e confiabilidade das instituições.
  • Os Estados Unidos: praticamente nenhuma interferência na economia, com sistema de seguridade social mínimo. Organização social totalmente baseada na competição, entretanto com bom suporte à educação, permitindo razoável igualdade de oportunidades, culturalmente muito díspar, respeito às liberdades, mas com muitos conflitos entre classes, apesar das diferenças serem muitíssimo menores que as nossas, segurança discutível, porém com instituições ainda confiáveis.
  • O Chile: alguma interferência na economia, com sistema de seguridade social básico. Ainda lutando para superar as diferenças sociais, mas evoluindo muito bem, conseguindo já um ambiente com algum equilíbrio, segurança e confiabilidade das instituições.
  • Os demais países da América Latina: interferências variadas na economia, mas bem acima do desejável, com sistemas de seguridade social precários. Diferenças sociais extremas, experiências nacionalistas grotescas, pobreza, falta de educação, saúde, segurança e quase nenhuma confiabilidade nas instituições.
  • O Brasil: alguma interferência na economia, com sistema de seguridade social precário. Apesar de termos dois países em um, o Sul/Sudeste e o resto, deixo para cada uma fazer sua própria avaliação.
Compromisso

A vida em sociedade é muito complexa para o anarquismo com que sonhei, precisa de organização, de instituições que mantenham os compromissos entre os indivíduos dentro dessa sociedade.

Podemos notar que, as melhores sociedades para se viver, são também as que possuem instituições mais confiáveis.

Mas, o que são as instituições senão porta-vozes do ‘outro’ na sociedade. Confiar nas instituições pressupõe confiar no vizinho, no colega de trabalho, no patrão, no policial, no juiz, no governo e assim por diante, porque isso leva ao compromisso que conduz ao equilíbrio e à segurança.

Compromisso, o que é isso?

Competição é o fundamento da vida, a sobrevivência do mais forte, é o que nos impõe o gene egoísta, mas competição exige competência, não apenas força ou inteligência.

Seres gregários que somos, precisamos estabelecer laços com nosso grupo, compromissos.

Partindo da premissa de que capitalismo e democracia são baseados no individualismo, como as sociedades que analisamos anteriormente conseguiram uma consciência de coletividade?

Em uma palavra: CONFIANÇA!

Esse é o divisor de águas entre as sociedades ditas evoluídas, com elevada consciência social e as sociedades em desenvolvimento como a nossa. É a nau que nos leva à competência, através do compromisso.

Compromisso é uma viagem, a bordo da Confiança, rumo à competência![3]

Alguns causos para ilustrar o tema:

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A CESP tinha convênio com organizações de apoio a populações carentes, que mandavam jovens para trabalhar como aprendizes. Um desses rapazes, auxiliar de escritório de uns 14 anos, muito bonzinho, educado, prestativo, certo dia chegou todo feliz.

Ele tinha saído para ir ao banco e chegou falando que tinha ‘achado’ um cartão telefônico – naquela época eram novidade – com carga quase total.

Quando ele se aproximou eu perguntei: – Achou como?

– A mulher que saiu do orelhão deixou lá e eu peguei! – falou todo entusiasmado.

– Ué, você viu de quem era o cartão e não devolveu?

– Claro, tava lá dando sopa, por que eu ia devolver?

– Porque um dia pode acontecer com você! Você ia gostar se levassem seu cartão?

– Mas comigo acontece sempre e eu sempre fico no prejuízo...

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Muito tempo atrás, eu estava em um táxi e o motorista falava dos políticos, de como se elegem por interesse próprio, sem nenhum espírito público e, na época, estava havendo uma greve no metrô de Londres.

Eu aproveitei a oportunidade para fazer uma pegadinha:

– Meu caro, sabe que estão falando em greve no metrô? – Ele disse que não estava sabendo de nada. Claro, não havia mesmo nenhuma notícia sobre o assunto, eu tinha inventado na hora.

– Pois é, acho que vai ser bom pros taxistas, né? Como fica se não tiver metrô nem ônibus na cidade? – Perguntei.

– Ah, aí a gente lava a égua. Teve uma greve dessas que eu cheguei a levar 4 passageiros, tipo lotação, de Santo Amaro até a Bandeira, cada um pagando uma nota, corrida fechada, sabe como é? Foi muito bom!

– Veja você como são as coisas, está no jornal: em Londres os taxistas liberaram o taxímetro e estão transportando os passageiros de graça, em apoio aos grevistas do metrô! Quanta diferença, não?

Fez-se o silêncio no resto da viagem...

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Uma piadinha que ouvi não sei mais onde:

Se perguntássemos a um americano o que ele faria com um milhão de dólares, ele, muito provavelmente, desfiaria uma enormidade de ideias mirabolantes: criar uma nova indústria, inventar um novo produto, comprar uma fazenda etc.
Se fizermos a mesma pergunta a um brasileiro, certamente a resposta será:
– NADA! Com um milhão? Não faço mais NADA! Vou viver de renda, só no bem bom!


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A Confiança (ou a falta dela) é o tema principal dessas histórias: confiança no próximo, na sociedade ou no sistema.


Estou convencido que essa é a chave para uma sociedade saudável. Para agir bem é preciso contar com alguma coisa boa também, é preciso confiar.

Quem confia é confiável.

Confiança é uma coisa que se conquista na prática, não se ensina na escola.

Em primeiro lugar é preciso ter a clareza de que a Confiança é um sentimento de quem tem, não tem nada a ver com o objeto da nossa confiança.

Alguém poderá objetar: – Como confiar se aquilo em que se quer confiar não for confiável?

Sem dúvida! Para confiar, o objeto de nossa confiança deve merecer essa confiança, mas o único juiz desse merecimento seremos sempre nós mesmos, portanto, seja num caso ou no outro, quem confia é que faz uma aposta e é responsável por essa decisão.

O processo de conquista da confiança passa por ser confiável e, ao mesmo tempo, dar uma chance ao outro.

Temos uma herança cultural altamente prejudicial nesse sentido, tendemos a ser mais realistas que o rei, padecemos de uma hipocrisia de perfeição e de um chauvinismo que causaria inveja a um francês[4].

Talvez o grande ensinamento do capitalismo democrático seja esse, admitir essa condição de imperfeitos que somos, de que nossa confiança nem sempre será correspondida, bem como nem sempre corresponderemos à confiança dos outros, e enfrentar honestamente essa realidade.


Voltando à pergunta do título:
Confiança, Ter ou Merecer?

Eu acredito que a Confiança é a causa do equilíbrio de uma sociedade e não apenas o seu resultado.

É por isso que a distribuição de renda deve vir antes mesmo da educação, porque o dinheiro é o maior símbolo de compromisso em uma sociedade[5], é o que dá dignidade ao homem, faz com que ele aumente sua autoconfiança e estimula a busca de melhores condições.

Por esse motivo todas as sociedades que atingiram algum grau de equilíbrio, no ambiente capitalista baseado na propriedade privada, começaram seus processos de formação pelo estabelecimento de uma relação de confiança, iniciado por uma distribuição de terras.

Na época em que essas sociedades se formaram, quero dizer nas bases em que funcionam hoje, há cerca de duzentos anos, o modo de vida ainda era predominantemente agrário e a propriedade de terra era o que determinava a liberdade do homem.

A partir desse primeiro passo, dado por iniciativa de uma liderança política com grande visão de futuro, estabeleceram-se as condições para que todos, ou pelo menos a maioria, tivessem oportunidades similares de produzir riqueza. Com isso desenvolveu-se um clima de respeito entre ricos e pobres, a partir da convicção de que a acumulação de riqueza se devia quase exclusivamente à competência do indivíduo, o que era admirado por todos e não execrado como injustiça.

Sempre houve exceções, exploradores, conflitos entre trabalhadores e capitalistas, como há até hoje, mas não a partir de um sentimento generalizado de conflito de classes e sim entendido como conflito entre indivíduos ou grupos com interesses opostos.

Uma era que já era!

Hoje a situação não é tão fácil de resolver porque as condições para produção de riqueza ficaram muito mais complexas, principalmente devido à especulação financeira. Por exemplo: distribuir terras hoje não representa, necessariamente, dar condições ao indivíduo de produzir riqueza, uma vez que, eventualmente, vender essas terras mostra-se menos arriscado do que se expor em uma atividade em que a competição chega a ser desleal com o pequeno produtor. O agronegócio e a agroindústria dispõem de uma capacidade de investimento e de produtividade impossível de ser atingida por um pequeno agricultor, ainda que com apoio estatal.

Quando criticamos um sem-terra por vender seu lote para um especulador, como se ele fosse o próprio especulador, estamos sendo muito simplistas. Claro que distribuir terras para estimular especulação não é aceitável, mas o fato é que isso ocorre porque o processo não é adequado, não por improbidade do indivíduo, mas porque ele se vê quase que forçado a fazer o que faz.

Além disso, a população se urbanizou e a economia se tornou fortemente industrializada, transformando a distribuição de renda um desafio extremamente complexo.

Precisamos encontrar novas fórmulas para equiparar as oportunidades dos menos favorecidos em relação à elite econômica, uma vez que a disparidade atingiu um nível em que a mera distribuição de riqueza não permite um real aumento dessas oportunidades.

Inferioridade? Assunto complexo!

É fato que não podemos fazer frente ao poderio militar dos Estados Unidos, nem à pujança econômica da China.

Também não temos a história ou a cultura da Itália, ou a inventividade da Coréia do Sul.

Aí você pensa: – Só falta ele dizer que ‘está tudo bem, o que importa é ter saúde’ (e o pior é que nem isso podemos dizer)!

Pois é! É desse sentimento que estou falando. Vemos nas qualidades dos outros o padrão do que é bom e nem mesmo sabemos quais são as nossas qualidades. E sabe por quê?

Porque estamos viciados e condicionados a pensar desse jeito, com isso tentamos copiar as experiências dos outros ao invés de buscar descobrir o que sabemos fazer melhor deixando de lado essa comparação patológica com padrões inalcançáveis.

Não se trata de um problema individual, nosso problema é cultural.
Dizer ‘este não é o meu país’,
fugindo da luta com um poema,
pode ser bagual para quem diz,
mas não resolve nosso problema.

Repare agora nas suas próprias atitudes! Perceba como, ao pensar nas questões aqui colocadas, há uma tendência a pensar no outro, nunca em nós mesmos.

Talvez nossa convicção de que nada aqui dá certo, de que nossa polícia não é confiável, nossos políticos e juízes são corruptos, nosso governo é incapaz ou mal intencionado, não seja, necessariamente, baseada em fatos, mas, principalmente, em certo complexo de inferioridade.


Complexo, sim! No fundo temos sérias dúvidas se somos confiáveis, o que nos deixa inseguros para confiar. É um círculo vicioso.

Não digo que os problemas não existem, é claro que estão aí e precisamos lutar para corrigi-los, mas a questão é de atitude, precisamos acreditar, pelo menos, que podemos corrigir.

Uma das coisas que sempre me chamou a atenção nos Estados Unidos é que lá coexistem as melhores coisas do mundo com as piores e os próprios americanos são os maiores críticos de suas mazelas, mas nunca perdem a pose.

Que futuro queremos de presente?

Infelizmente, vivemos uma época de falência da confiança, não só aqui, mas no mundo inteiro.

Alguém disse que as ideias estão no ar e que as captamos quando estamos sintonizados. Assanje e Snowden apenas agiram em sintonia com os sinais vindos de todos nós: insegurança e desconfiança crescente, quando se propuseram a expor os mecanismos do poder pelo lado de dentro, com sua cara monstruosa por trás da máscara de defensores da liberdade e da segurança.

O vandalismo presente nas manifestações de rua não se deve a simples irresponsabilidade de alguns, são resultado de um sentimento de que as coisas não vão bem e que não são pequenas reformas ou ajustes aqui e ali que resolverão o problema. É contra esse estado de coisas que surgem os Black blocs, por exemplo.

As revelações dos segredos e da espionagem de estado promovidas pelos nossos heróis apenas vieram acirrar ainda mais esses sentimentos.

Talvez seja mesmo necessária uma ruptura nas relações para estabelecer um novo pacto social em bases mais consistentes, não só em casos como o nosso, mas em todo o mundo capitalista democrático, afinal estamos assistindo manifestações de descontentamento em toda parte do planeta.





[1] Só para constar: para os mais conservadores ou simpatizantes da direita, lembro que, em sua grande maioria, o são (de direita) porque a “moda” do pós-guerra era idolatrar os EUA e suas doutrinas anticomunistas da guerra fria – “allora, la stessa roba”.
[2] Fernando Pessoa
[3] Compromisso, o que é isso? É uma viagem, a bordo da Confiança, rumo à competência!
Essa é mais uma provocação do Lincoln – aquele do SenSar. Não é sem motivo que ele era o ‘provocador’ da nossa trupe.
[4] Quando trabalhei com os franceses, eles ficavam impressionados com o fato de que tudo que eles pegavam tinha a frase: Made in Brazil, e diziam: – Por que tudo aqui tem que ser brasileiro? Vocês não importam nada?
[5] Um simples pedaço de papel ou metal sem valor (hoje apenas um cartão de plástico) é aceito por todos como suficiente para selar qualquer transação material (e, às vezes, mesmo as não materiais).