Pondo os pingos nos is!

02/04/2019

02/04, efeméride mais verdadeira que o falso 31/03 e antítese do dia da mentira, porque foi nessa data que tudo se consolidou, mas...
cada coisa a seu tempo.

A esquerda de fato!

O fato é que o mundo do século XXI está consolidado por um grupo de empreendedores pragmáticos e extremamente competentes que definem a cara da sociedade e o resto, os demais, que se dividem em dois grupos.

Nos países com alto índice de educação, qualidade de vida e consciência política, são majoritariamente os indivíduos com menor competência que tentam seguir o modelo dos mais competentes, eventualmente atingindo o nível de competência da elite.

Já nos países pobres e pouco desenvolvidos, com educação precária, qualidade de vida muito baixa e altos índices de corrupção permeando a cultura da sociedade, há uma pseudo-elite formada por pessoas que se classificam como de esquerda ou centro-esquerda, que, ao invés de se dedicar ao auto-desenvolvimento, preferem apontar "culpados" pela situação, sua e dos mais pobres, acusando principalmente os mais competentes.

Os menos competentes, mesmo não compactuando com as teses de esquerda, oscilam entre a admiração e o ódio aos competentes, massacrados pelo discurso vitimista da ideologia socialista.

Fundamentalmente são duas correntes: a que respeita a natureza da vida em sociedade, baseada na competição e na lei do mais forte e a idealista que pretende a instauração de um regime igualitário que se imponha pela força.

Esse fato gera um clima de deterioração da confiança, aumento da intolerância e é o principal, ainda que não o único,  motivo de surgimento de movimentos radicais de direita e dos regimes de força com o pretexto de proteger a sociedade contra essas ideologias deletérias. Não por coincidência tem tantos pontos em comum com as religiões, incluindo-se as boas intenções do baixo clero e o maquiavelismo diabólico das cúpulas.

Hoje constato muito decepcionado que o principal, se não o único, motivo para a infelicidade de um povo é a aceitação das ideologias de esquerda como admissíveis para a administração do país.

Nota: Esta discussão é a base de tudo, porque muitos defendem a livre iniciativa e a democracia e, ingenuamente, apoiam grupos cuja ideologia é o oposto disso.

A esquerda de fato II!

Um outro viés desta discussão é o qualificativo "esquerda".

Se formos às origens veremos que foi a Revolução Francesa que deu origem aos termos "direita" e "esquerda"

O uso político dos termos esquerda e direita é referenciado na Revolução Francesa, em 1789, quando os liberais girondinos e os extremistas jacobinos sentaram-se respectivamente à direita e à esquerda no salão da Assembléia Nacional.

Os direitistas pregavam uma revolução liberal, a abolição dos privilégios da nobreza e estabeleceram o direito de igualdade perante a lei. Os esquerdistas também defendiam o fim dos privilégios para nobreza e clero, mas eram favoráveis a um regime centralizador.

No final do século XIX, com a divulgação das ideias de Karl Marx, surgiu uma nova dicotomia política, as ideias liberais do capitalismo de Adam Smith versus as ideias centralizadoras do socialismo marxista.

As qualificações direita e esquerda, que eram adotadas como situação e oposição, começaram a se identificar com liberalismo e socialismo.

O socialismo, tal como foi experimentado, acabou por se tornar sinônimo de estado centralizador e, consequentemente, autoritário, até porque os princípios pelos quais uma sociedade socialista deveria se orientar são tão contrários às tendências naturais do ser humano que só poderiam ser respeitados pela força. Aqui as tendências capitalista e socialista já não vem mais ao caso.

O golpe de 1964

O golpe militar começou no dia 31 de março de 1964 e se sacramentou na madrugada de 1º para 2 de abril, quando Auro de Moura Andrade, presidente do Senado, declarou vago o cargo de presidente da República. A partir de então, o país permaneceu 21 anos sob uma ditadura.

Para levar o ato adiante, os militares contrários ao governo de João Belchior Marques Goulart (PTB), o popular Jango, contaram com o apoio de governadores, como Carlos Lacerda (Guanabara), grande parte do empresariado, os meios de comunicação, a Igreja Católica e uma expressiva base social.

Foram diversos os fatores que levaram à queda de Jango, como a oposição às reformas estruturais por parte dos setores conservadores, que temiam o avanço do comunismo.

O golpe foi realizado por uma coligação de forças e interesses, composta pelo grande empresariado brasileiro, por latifundiários – proprietários de grandes parcelas de terras, e por empresas estrangeiras instaladas no país, sobretudo aquelas ligadas ao setor automobilístico. A conspiração contou com a participação de setores das Forças Armadas, aos quais a maioria da oficialidade acabou aderindo, diante da passividade da liderança militar legalista, ou seja, aquela que era contra um golpe de força contra o presidente eleito.

Acenando com o espantalho do comunismo, visto como sinônimo de regimes violentos e totalitários, a Igreja Católica contribuiu para disseminar o medo do governo de Jango entre a população e arrastou multidões às ruas, clamando por liberdade. Manifestações que também serviram de justificativa para o golpe militar contra as liberdades democráticas.

A situação da politica interna no Brasil criava todas as condições para um golpe, mas o encorajamento do governo dos Estados Unidos talvez tenha sido fator decisivo para que ocorresse de fato o golpe. Na preparação da tomada de poder, a diplomacia norte-americana, comandada pelo embaixador dos EUA no Brasil, Lincoln Gordon, praticamente coordenou a conspiração entre empresários e militares, dando garantia de apoio material e militar.

O momento, inimaginável para as gerações atuais, era de guerra fria, denominação que se deu ao clima de tensão permanente que se estabeleceu após a 2ª grande guerra, entre as duas grandes forças imperialistas que se estabeleceram nessa época.

É bom lembrar que o socialismo, ou comunismo como meta, era um fenômeno muito recente, com as teorias de Marx completando cem anos e a revolução russa apenas algumas décadas.

Com os eventos que culminaram na derrota das potências do eixo em 1945, coisa que ocorreu por algumas participações decisivas: a derrota da Alemanha se deu pela intervenção da Rússia, a da Itália, pelas ações, principalmente do Reino Unido e a do Japão, pelo ataque do B-29 “Enola Gay” dos USA.

Esses eventos deram origem a uma divisão geopolítica, com o ocidente sob o império americano e a Europa Oriental e parte da Ásia pela União Soviética.

É de extrema importância relembrar a estratégia de atuação de ambos os poderes hegemônicos da época: enquanto o império americano se dava pela via econômica apenas, visando negócios vantajosos para os conglomerados industriais e financeiros desse país, entretanto, dada a visão extremamente pragmática de seus líderes, filhos de uma cultura desenvolvimentista e de oportunidades iguais para todos, respeitando o espaço para desenvolvimento dos países sob seu domínio, como ocorreu com o Canadá, Austrália e países europeus, do outro lado, os países satélites, como a USSR chamava os estados dominados no pós-guerra, eram mantidos por mão de ferro – expressão cunhada pelos próprios russos – com suas economias em franca deterioração.

Evidente que de ambos os lados os interesses das respectivas potências centrais se sobrepunham aos interesses dos países dominados, mas, do lado americano, havia uma visão muito objetiva de que a riqueza desses países seria favorável ao desenvolvimento econômico de todos, a dominação estaria garantida pelo domínio do conhecimento que sempre obrigaria os dominados a se submeter a eles.

Nesse ambiente, aqui no Brasil, desde a revolução russa, com a adesão de setores da política ao projeto soviético e, particularmente ao de Cuba, palco de recente revolução – 1959 – que levou ao poder o ditador Fidel Castro, alguns já haviam tentado uma revolução com a Intentona Comunista de 1935.

A presença da KGB no Brasil – assim como da CIA – era conhecida desde os tempos de Prestes e Olga, sendo que os grupos armados com o objetivo de alcançar o mesmo que os cubanos alcançaram continuava mais vivo do que nunca.

Leonel Brizola, com a ideia do socialismo moreno, e seu cunhado João Goulart, estavam promovendo, após a renúncia de Jânio da Silva Quadros, ocorrida por ação de “forças ocultas” nunca esclarecidas, mudanças, incitando a população a apoiá-los, no sentido de criar as condições para um processo de socialização do estado brasileiro, muito similar ao que ocorreu décadas mais tarde, na Venezuela, com Hugo Rafael Chávez Frias, Hugo Chaves.

O clima geral era totalmente pró-americano e dominado por um verdadeiro terror ao comunismo, sentimento que carrego até hoje, como um medo transcendental que foi inoculado nas populações do ocidente por uma propaganda massificante dos USA, propaganda cuja maior eficácia não vinha de sua qualidade, mas das notícias que vinham do outro lado, da cortina de ferro, como genocídios, pobreza e sofrimento generalizados. O genocídio do socialismo matou e invalidou 5 vezes mais que toda a sanha nazista.

Nessa época começaram alguns movimentos populares, liderados por eminências da política e da economia, contra as intenções explícitas do governo empossado com a saída de Jânio.

A quebra de hierarquia militar no episódio que ficou conhecido como revolta dos marinheiros, no Rio, também incomodou a cúpula das Forças Armadas. Pesou ainda a fragilidade do governo do político gaúcho, que praticamente não esboçou reação à investida dos militares.

Embora Brasília já fosse a capital do país, o Rio de Janeiro foi o epicentro da crise.

Em 13 de março de 1964, o presidente João Goulart participa de comício na Central do Brasil, no Rio. Entre as propostas defendidas por ele, duas, em especial, irritam os militares: nacionalização de todas as refinarias de petróleo e desapropriação de terras para reforma agrária.

No dia 19, contra as propostas de Jango, centenas de milhares saem às ruas em São Paulo na Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Organizadores da marcha pedem intervenção militar.

No dia 20, o general Castello Branco, chefe do Estado-Maior do Exército, envia circular para alguns militares em que trata das ações de Jango como ameaças à Constituição.

No dia 25, cerca de 2.000 marinheiros e fuzileiros navais realizam celebração de uma entidade considerada ilegal. Uma ordem do ministro da Marinha, Sílvio Mota, para prender os líderes da resistência não é cumprida. Mota deixa o governo.

No dia 30, em discurso para cerca de mil sargentos pró-governo no Automóvel Clube, no Rio, Jango volta a defender as reformas de base. É o seu último pronunciamento como presidente.

Na madrugada do dia 31, o general Olímpio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar, de Juiz de Fora (MG), inicia a movimentação de tropas em direção ao Rio. Por volta de 22h, o Comandante do 2º Exército, em São Paulo, e ex-ministro da Guerra, o general Amaury Kruel, pede a Jango que rompa com alguns nomes da esquerda que integram seu governo. O presidente nega o pedido, e Kruel adere ao golpe.

Na mesma data, teve início a Operação Brother Sam, da Marinha dos EUA, para apoiar o golpe que iria derrubar o governo constitucional. Mas nem foi preciso, pois a situação militar se resolveu internamente, já que não houve resistência organizada aos golpistas.

Aqui fica muito clara a similaridade em relação ao que ocorre nos dias de hoje na Venezuela, com a diferença que lá a insurgência é contra um governo socialista e corrupto que conta com o apoio das Forças Armadas, totalmente aliciadas pela corrupção sistêmica implementada pelo bolivarianismo.

Esboçou-se alguma resistência no meio sindical e no movimento estudantil, entretanto, essa resistência foi desorganizada e desestimulada pela própria atitude de João Goulart, que por saber da ameaça de intervenção estadunidense no país teria desistido de resistir quando foi do Rio de Janeiro, local estratégico para a resistência, para Brasília e, dali, para o Rio Grande do Sul. Ainda houve alguma discussão entre Jango e Leonel Brizola se era possível resistir a partir do RS, mas o presidente não assumiu esta opção. Como muitos outros, Jango achava que seria um “golpe passageiro”, e dali a alguns anos, novas eleições seriam convocadas. Afinal, fora assim em 1945, por ocasião da intervenção militar para depor Getúlio Vargas - em 1954 outra intervenção foi abortada com o suicídio de Getúlio.


Desde o início a ditadura militar buscou ter um aparato legal, como forma de se institucionalizar e de se legitimar perante a opinião pública, sobretudo a liberal, que tinha apoiado a destituição de Jango. Nesse sentido, o golpe contou com apoio de setores ancorados no Congresso Nacional e de juristas conservadores. Foi formalizado na madrugada do dia 2 de abril, no Congresso Nacional, mas sem amparo na Constituição, pois o cargo foi declarado vago enquanto o presidente continuava no território nacional e sem ter renunciado nem sofrido impeachment. Somente numa dessas três circunstâncias, além da morte, isso poderia acontecer.


O general Olímpio Mourão Filho narrou que se recolheu aos seus aposentos, em Juiz de Fora, na noite de 30 de março, enquanto Jango discursava no Automóvel Club do Brasil, no Rio. Comandante da 4ª Região Militar e da 4ª Divisão de Infantaria, Mourão desencadeou o movimento, junto com o general Carlos Luís Guedes. Seu plano era dar a largada na marcha na alvorada do dia 31. 

De manhã, as tropas ainda estavam em Juiz de Fora. Lá, às 7h de 31 de março, o tenente Reynaldo de Biasi Silva Rocha ministrou instrução de combate à baioneta. “Quem quer passar fogo nos comunistas levante o fuzil!”, gritou. Às 11h30, o chefe do Estado-Maior do Exército, Humberto de Alencar Castello Branco, disse por telefone ao general Guedes, que permanecia em Minas: “A solução é vocês voltarem, porque senão vão ser massacrados”. O general Castello em breve se tornaria marechal e presidente da República.

Ao meio-dia de 31 de março, Jango estava no Rio. No Palácio Laranjeiras, disse que havia “muito boato”, mas nada de concreto, sobre rebelião militar. Só por volta das 16h15 doze carros do Departamento de Ordem Política e Social pararam em frente ao edifício da Federação Nacional dos Estivadores. Tentaram prender os dirigentes do Comando Geral dos Trabalhadores, mas estes foram socorridos por soldados da Aeronáutica fiéis a Jango.

Em 1º de abril, por volta de 16h, no Rio, cinco tanques do 1º Regimento de Reconhecimento Mecanizado deixam os arredores do Palácio das Laranjeiras, do governo federal, em direção ao Guanabara, da administração estadual. Às 22h30, depois de viajar do Rio a Brasília, Jango embarca para Porto Alegre. Dizendo evitar ações que levem a derramamento de sangue, ele praticamente não oferece resistência aos conspiradores. Nesse momento, ele abandona formalmente o governo.

Fonte insuspeita, o velho general Cordeiro de Farias anotou: “A verdade - é triste dizer - é que o Exército dormiu janguista no dia 31. E acordou revolucionário no dia 1º”.

Na madrugada do dia 2 de abril de 1964, Auro de Moura Andrade, presidente do Senado, declara vago o cargo de presidente da República. Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados, assume a Presidência interinamente. Com apoio do governador Carlos Lacerda, a Marcha da Vitória, no Rio, reúne centenas de milhares de pessoas.

O Governo Ranieri Mazzili foi dividido em dois breves períodos da história do Brasil.

O primeiro, na quarta República, se inicia com a renúncia de Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961, e tem fim em 7 de setembro de 1961, após volta do então vice-presidente João Goulart de viagem que havia feito à China, totalizando 13 dias.

O segundo, na quinta República, teve início em 2 de abril de 1964, com a cassação do presidente João Goulart pelo Congresso, e fim em 15 de abril de 1964, após posse de Humberto de Alencar Castelo Branco (vencedor de eleição indireta no dia 11), totalizando novamente 13 dias. O espaço entre o fim do primeiro período e o início do segundo (Governo João Goulart) é de 938 dias (2 anos, 6 meses e 24 dias).

O presidente da Câmara, deputado Ranieri Mazilli, foi empossado como presidente interino. Os políticos golpistas tentaram assumir o controle do movimento, mas foram surpreendidos: os militares não devolveram o poder aos civis, sinalizaram que tinham chegado para ficar. Imediatamente criaram um Comando Revolucionário formado pelo general Costa e Silva(autonomeado ministro da Guerra), o almirante Rademaker, e o brigadeiro Correia de Melo.

Chamar a deposição de João Goulart de “golpe” ou de “revolução” revelava, e ainda revela, a linha ideológica da pessoa. Para a direita, sobretudo militar, o que estava em curso era uma revolução que iria modernizar economicamente o país, dentro da ordem. Para a esquerda e para os setores democráticos em geral, não havia dúvidas: tratava-se de um golpe de Estado, um movimento de uma elite, apoiada pelo Exército, contra um presidente eleito. A historiografia convencionou chamar o acontecimento de golpe, pelo caráter antirrevolucionário e antirreformista do movimento civil-militar que derrubou Jango.

Costa e Silva cria o Comando Supremo da Revolução, composto por três membros: o brigadeiro Francisco de Assis Correia de Melo (Aeronáutica), o vice-almirante Augusto Rademaker (Marinha) e ele próprio como representante do Exército.

No Recife, o dirigente comunista Gregório Bezerra é amarrado à traseira de um jipe e puxado por bairros da cidade. No fim do percurso, é espancado por um oficial do Exército com uma barra de ferro.

No dia 4, Jango desembarca no Uruguai em busca de asilo político.

No dia 9 de abril de 1964, declarando que “a revolução vitoriosa se investe no exercício do Poder Constituinte”, esse comando baixou o primeiro Ato Institucional, que convocou o Congresso a eleger um novo presidente com poderes muito ampliados. No mesmo dia, o Congresso, já amputado em 41 mandatos cassados, submeteu-se ao poder das armas, elegendo, no dia 11, o general Humberto Castelo Branco à presidência. Entre os deputados federais cassados nessa ocasião, estavam Leonel Brizola, Rubens Paiva, Plínio Arruda Sampaio e Francisco Julião.

O movimento militar dava, assim, seu primeiro passo. Um movimento que se impôs com a justificativa de deixar o Brasil livre da “ameaça comunista” e da corrupção, e que desde o início procurou se institucionalizar. Dessa forma, pretendia criar uma nova “legalidade”, que evitasse as pressões da sociedade e do sistema político-partidário sobre o Estado, considerado como um espaço de decisão política acima dos interesses sociais, pretensamente técnico e administrativo, comandado pelos militares e pelos civis “tecnocratas”.

Entretanto, o primeiro Ato Institucional já configurava o novo regime como uma ditadura. Explicitamente afastava o princípio da soberania popular, ao declarar que “a revolução vitoriosa como Poder Constituinte se legitima por si mesma”. Dessa forma, concedeu amplos poderes ao Executivo para decretar Estado de sítio e suspender os direitos políticos dos cidadãos por até dez anos; cassar mandatos políticos sem a necessária apreciação judicial; também suspendeu as garantias constitucionais ou legais de estabilidade no cargo, ficando assim o governo livre para demitir, dispensar, reformar ou transferir servidores públicos.


Como consequência imediata, houve uma onda de cassações de mandatos de opositores, de demissão de servidores militares e civis, e numerosas prisões. Nos primeiros 90 dias, milhares de pessoas foram presas, ocorreram as primeiras torturas e assassinatos. Até junho, tinham sido cassados os direitos políticos de 441 pessoas, entre elas os dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, e João Goulart, de seis governadores, 55 congressistas, diplomatas, militares, sindicalistas, intelectuais. Além disso, 2.985 funcionários públicos civis e 2.757 militares foram demitidos ou forçados à aposentadoria nesses dois primeiros meses. Também foi elaborada uma lista de 5 mil “inimigos” do regime. A ditadura já começou implacável!

A partir de 1968, acompanhando a onda de rebeldia global, aqui também houve um recrudescimento das manifestações contra o regime, pronta e violentamente reprimidos pelo governo. Foi quando o general Costa e Silva decretou o Ato Institucional nº 5, o AI-5, considerado como um golpe dentro do golpe, fortalecendo o poder autoritário dos militares. Iniciavam-se os verdadeiros anos de chumbo.

O chamado "milagre brasileiro" levou um país periférico que era algo como a 50ª economia do mundo a se transformar em um importante player internacional, já como 8ª economia, a despeito da enorme concentração de renda que se aprofundou nesse período.

Posteriormente a corrupção e incompetência, ambos derivados do otimismo exagerado com o "milagre", levou as contas do país à bancarrota. Qualquer semelhança com os governos petistas não é mera coincidência!

Nota minha:

Aos meus filhos, parentes e amigos peço as mais sinceras desculpas.

Admito, sou culpado de ter ajudado a alimentar um monstro, um monstro que, não bastasse sua proposta política equivocada, sua suprema presunção de senhores da verdade, sua miopia sobre a natureza humana, sua irresponsabilidade em relação à coisa pública, seu desdém em relação às pessoas e sua liberdade, além de tudo isso, conseguiram popularizar, como nunca antes na história deste país, a intolerância e o sectarismo.

Meu erro foi acreditar que existia inteligência e, principalmente, bom-senso, naqueles que quase unanimemente apoiamos nos últimos 30 anos, muito mais como reação à ditadura do que a favor de ideologias. Acreditamos que, pelo menos em sua maioria, presavam a livre inciativa, as liberdades individuais e a democracia, valores dos quais nunca me apartei.

Neste país em que radicais, como os fascistas e os comunistas nunca passaram de traço, ainda que, é verdade, a esmagadora maioria sempre tenha sido submissa e alienada, eles conseguiram perpetuar a submissão e a alienação, mas agora temperadas com muito ódio de todos por todos.

Hoje somos submissos e alienados e massa de manobra de radicais violentos que nunca foram de esquerda ou de direita, mas canalhas cujo único objetivo é manter seus privilégios.

Sim, sempre fomos submissos e alienados, nem mesmo tentamos alterar a correlação de poder estabelecida desde a invasão européia, mas movimentos como o fascismo e o comunismo nunca prosperaram por aqui, porque nunca servimos de massa de manobra para radicais.
Até o advento deletério do PT.

Quem sabe, se não tivéssemos alimentado essa víbora, poderíamos estar livres desse escorpião que nos assola!

Infelizmente só posso me desculpar, o estrago já foi feito, agora são as novas gerações que terão que encontrar o caminho para uma nova sociedade, lamentavelmente conflituosa e injusta como sempre foi, agora também violenta.

O reducionismo que vivemos nos dias atuais está nos levando de volta à idade média. 

Quando artistas se levantam em uníssono contra fatos deploráveis apoiamos de forma incondicional, mas quando isso se torna um movimento repressivo contra todo tipo de atitude não admitida pelo grupo estamos vivendo uma inquisição coletiva.

Tudo se resume a um maniqueísmo infantil, de mal digeridas fábulas, onde os cenários de vilões do lado negro e heróis do lado luminoso não representam as pulsões humanas essenciais e presentes em todos nós, mas como se os fatos ocorridos fossem todos fruto, de um lado, das intenções maléficas e injustificadas de seres perversos e, de outro, a concepção correta e impoluta de seres superiores - como eu!





Não importa o lado que defendemos, mas a impaciência está dominando a sociedade e os riscos disso são conhecidos.

Ninguém mais está disposto a ouvir o outro, as verdades simplórias e pouco elaboradas são muito atraentes nessa hora, mas o abismo não perdoa, o simplismo das conclusões leva à inexorável queda!


Comentários sobre o artigo do futuro ministro das relações exteriores, Ernesto Araújo, na publicação do Itamaraty de 2017, CADERNOS DO IPRI Nº 6, “Trump e o Ocidente”.
O texto está no link ao final

19/11/2018


Depois de 11/09/2001 a perplexidade tomou conta de nós, será que perdemos a capacidade de sermos "nós" para sermos apenas animais acuados?

A dominação dos chineses, a revolução islâmica, o imperialismo americano, a doutrinação marxista, a mudança climática? Cada um pode escolher sua versão de apocalipse, só não vale dizer que está indiferente.

A discussão que se impôs pelas urnas, lá e cá, está posta.

Temos opções: discutir, nos calar ou reagir sem pensar, submetidos às ideologias que foram inoculadas em nossas almas por aqueles que não têm nenhum compromisso com futuros possíveis, apenas obsessão pelo poder?

Não, não aceito qualquer rótulo se não houver a disposição de discutir, aliás o que uma minoria barulhenta nunca admitiu, exceto se for para “discutir” contra o "fascismo".

Aceito discutir até deus, por que não. Sempre disse que o Mistério só pede Ser Sagrado! Afinal o bicho homem, como sempre disse, é, antes de tudo, um bicho, cuja complexidade não aceita ideologias projetadas por mentes algorítmicas.

Acredito que depois da liberdade, a coisa mais fundamental para o homem é a sensação de pertencimento, de fazer parte de algo que vale a pena, de uma identidade.

Darcy Ribeiro morreu sem saber a resposta à sua principal questão: O que o Brasil quer ser?

Não queremos ver manifestações culturais como “folclore”, nos sentindo superiores, como intelectuais, e sim participar delas como integrantes legítimos e aceitos pelos nossos pares.

Para isso não podemos ser cidadãos do mundo, mas pessoas de algum lugar.

Não podemos amar a todos da mesma forma, quem disser isso não ama ninguém. Nosso coração não é, como todo o resto do nosso corpo, angelical, não, é o coração do bicho homem, limitado e que, portanto, exige escolhas.

Quando li "Em defesa do socialismo" de Fernando Haddad vi o oposto do que acredito, não posso dizer o mesmo do texto de Ernesto Araújo, ainda que não seja exatamente o que penso, mas bem afinado com algumas convicções.

Acredito que podemos avaliar nossa visão de mundo por um conjunto de valores que priorizamos, como na tabela a seguir:

competição
colaboração
caridade
solidariedade
direitos
deveres
justiça
bondade
família
tribo
sagrado
ciência
certo
fácil
perfeito
simples
local
global
ideologia
pragmatismo
dúvida
certeza
sucesso
trabalho
procurar
achar
chegar
viajar

Toda concepção de sociedade prioriza alguns desses valores, se escolhermos em cada linha apenas um dos valores, aquele que priorizamos em nossa forma de ver o mundo, poderemos entender melhor porque eventualmente discordamos tão ferozmente em nossas discussões.

Alguns escolherão os valores da 1ª coluna, muitos dirão que seriam os da 2ª coluna e outros ainda que seria uma mescla desses valores, mas acredito que facilitaria muito a discussão começar por essa escolha. A partir daí vamos tentar entender o pensamento desse novo ministro das relações exteriores.

O objeto do seu artigo são as políticas de Donald Trump, que ele considera mais sérias do que normalmente encaramos.

Trump não parece uma personalidade admirável, pelo menos não por motivos nobres, como Bolsonaro também não, mas ambos são o resultado de um processo que transcende muito as estratégias publicitárias de uma eleição - caso contrário, os mestres da publicidade gramscianos teriam vencido mais uma - são o resultado de uma fermentação de ideias, descontentamentos, desalentos e, paradoxalmente, esperanças.

O nosso futuro ministro das relações exteriores está errado ao interpretar Trump, ou ao defender as ideias que ele defende? Chi lo sa!

Quanto a um eventual adesismo do nosso futuro governo ao presidente americano ou a suas políticas, adesismo que seria solenemente ignorado por nosso grande irmão do norte, vale lembrar que o autor, culto que é, tem total consciência de que para Trump, assim como para todo o chamado West, nosso Ocidente, não só o Brasil, como toda a América Latina não se incluem nesse grupo.

O “Ocidente”, para seus próprios integrantes, é formado basicamente por Europa, Estados Unidos, Canadá e outras poucas seletas nações, dessa forma seria ridículo para qualquer um de nós, muito mais para uma pessoa bem informada como nosso futuro ministro, ter qualquer ilusão de reconhecimento por parte de Trump ou qualquer outro líder ocidental.

O fato é que, pela primeira vez em 30 anos pelo menos, vejo o afloramento de ideias que, mesmo insistindo muito, não conseguia colocar em discussão. Temos que reconhecer a ditadura ideológica em que vivemos por todo esse tempo, muitos por toda a vida. Não se trata de concordar ou não, apenas de permitir-se o acesso a várias visões de mundo, pra além do politicamente correto e do discurso engajado.

Temos a chance de acabar com a hipocrisia de achar que se defende este ou aquele ponto de vista porque, pra além de qualquer possibilidade de dúvida, é o lado "certo".

O fato é que o defendemos apenas porque nos identificamos com ele, acreditamos em seus princípios lógicos, em outras palavras, fazemos uma aposta em um caminho mesmo sem saber se é o certo e, dessa forma, esperamos que a maioria esteja conosco e, em última análise, que todos estejam certos.

É inadmissível continuar a alimentar antipatias e até inimizades por não respeitar a visão do outro e, por respeitar, quero dizer aceitar como uma possibilidade real dessa visão estar certa. Contestar não significa desmerecer. Criticar fatos é uma coisa, ideias se contesta.

Nem falo do comportamento insano de fazer um enorme espalhafato a cada tropeço da nova equipe, o que revela o desejo mesquinho de ver o circo pegar fogo, como se não fizessem parte da mesma trupe.

Vamos aproveitar essa oportunidade ou continuar a nos entrincheirar teimosamente em um lado do campo de batalha que não queremos nem saber bem qual é, nos contentando em saber que sempre estivemos lá, sem pensar?

No link a seguir o texto em referência:
Trump e oOcidente - Ernesto Araújo





O filme Trumbo conta a história de Dalton Trumbo, um dos maiores roteiristas de Hollywood, acusado de conspiração anti-americana na época da caça aos comunistas, nos anos 1950. Ele, como tantos outros, fez parte de uma blacklist que foi usada para perseguição de todos que professavam convicções comunistas.

A força da indústria cinematográfica acabou prevalecendo e quase todos – alguns morreram nesse período – voltaram ao show business, como resultado de seus indiscutíveis méritos em suas áreas de atuação, confirmados pelas enormes bilheterias que produziam com suas produções. Assim se encerrou esse capítulo triste da política americana.

O seu discurso de agradecimento ao Writers Guild of America Laurel Award, é memorável:
The blacklist was a time of evil and no one who survived it came through untouched by evil.
Caught in a situation that had passed beyond the control of mere individuals, each person reacted as his nature, his needs, his convictions and his particular circumstances compelled him to.
It was a time of fear and no one was exempt.
Scores of people lost their homes, their families disintegrated. They lost!
And in some... some even lost their lives.
But when you look back upon that dark time, as I think you should every now and then, it will do you no good to search for heroes or villains.
There weren't any.
There were only victims.
Victims, because each of us felt compelled to say or do things that we otherwise would not.
To deliver or receive wounds which we truly did not wish to exchange.

A lista negra foi um tempo do mal e ninguém que sobreviveu saiu ileso.
Pegos em uma situação que passou do controle de meros indivíduos, cada pessoa reagiu como sua natureza, suas necessidades, suas convicções e suas circunstâncias particulares o obrigaram.
Foi uma época de medo e ninguém ficou isento.
Dezenas de pessoas perderam suas casas, suas famílias se desintegraram. Eles perderam!
E alguns ... alguns até perderam suas vidas.
Mas quando você olha para trás naquele tempo sombrio, como eu penso que vocês deveriam fazer de vez em quando, não adiantará procurar heróis ou vilões.
Não havia nenhum.
Havia apenas vítimas.
Vítimas, porque cada um de nós se sentiu obrigado a dizer ou fazer coisas que de outra forma não faríamos.
Provocamos feridas que realmente não desejávamos.


15/11/2018
Inclui a análise do livro "Em defesa do socialismo" de Fernando Haddad - ao final


Nesta nova proclamação da república, vamos falar sobre escapismo?

Não, nada a ver com a especialidade de Houdini, o célebre ilusionista americano, falo de uma patologia social derivada de nossa insegurança ancestral, tão bem traduzida pelo mito do fruto proibido. Mesmo sabendo que essa necessidade de conhecimento nunca vai ser totalmente satisfeita, nos arriscamos até a perder o equilíbrio na busca de respostas.

Sempre falei que a humanidade não consegue viver muito tempo sem guerras. A grande guinada que estamos vivenciando atualmente, do mundo da harmonia, globalização, diversidade, sustentabilidade para uma realidade de conflitos, terrorismo, migração em massa, intolerância, xenofobia etc. é um sinal de que chegamos ao limite.

Essa ideia, muitas vezes repetidas, era mais um sentimento do que uma opinião de fato, mas, pensando nos últimos acontecimentos aqui no Brasil e confrontando com minhas convicções de sempre, cheguei a algumas conclusões, ainda que, como todas, provisórias.

As religiões sempre tiveram um papel fundamental na coerção de um desenvolvimento livre e efetivo da mente humana e, mais recentemente, o trans-humanismo1 vem desempenhando cada vez mais esse mesmo papel nestes tempos de sagração da ciência como o novo deus.

1 Trans-humanismo é um movimento intelectual que visa transformar a condição humana através do desenvolvimento das tecnologias disponíveis para aumentar consideravelmente as capacidades intelectuais, físicas e psicológicas humanas.

Em ambos os casos não podemos responsabilizar essas ideologias pelo embotamento que provocam, elas são fruto de uma necessidade essencial desse bicho que chamamos homem.

Se, por um lado, a liberdade é o maior desejo do ser humano, é, ao mesmo tempo, a coisa mais temida. Cabeça vazia é a oficina do diabo! Diz o dito popular. A causa é essa esquizofrenia de querer muito algo que, ao mesmo tempo, causa um pavor terrível.

Toda essa loucura obsessiva sobre como se quer, ou se deve, ou se pode viver, em todos os aspectos possíveis e imagináveis, provocando confusão nos indivíduos e nas sociedades, devem-se ao fato de termos que nos preocupar quase exclusivamente com trivialidades. Nosso modelo de sociedade de direitos é baseada na delargação de quase tudo que é vital: segurança, saúde, alimentação, e uma infinidade de outras coisas são deixadas sob a responsabilidade de “especialistas” ou do governo.

Claro que falo da parte "ativa" da sociedade, afinal existem países inteiros que estão muito aquém desse processo, e mesmo parcelas enormes da população de países como o Brasil, que, vivendo uma realidade muito diferente das elites pensantes, mas com o poder do voto, acabou surpreendendo grande parte dessa elite nas últimas eleições, em 2018. Na realidade essa parte da elite é a parcela da população "dominada" pela esquizofrenia Vem engano!

Recomendo o filme INSTINTO, com Anthony Hopkins e Cuba Gooding Jr., uma excelente descrição desse conflito.

A filosofia clássica nos ensinou as bases de todo pensamento racional, infelizmente não nos ensinou a "sabedoria", aquilo que, pra além de entender que todo conflito humano vem da disputa entre o querer, o dever e o poder, perceber a chave desse "desequilíbrio" necessário.

A cultura da elite dominante tem disseminado certos conceitos como progressistas, considerando tudo que for contrário como reacionário e - o que eles preferem - fascista.

O pensamento “progressista” pega uma carona nos movimentos hippies dos anos 1960, ideias disseminadas por Marcuse, pregando a liberdade de pensamento e comportamento, o fim da intolerância com esses comportamentos “livres”, ainda que produzam, consciente e intencionalmente, uma violenta intolerância com os considerados “intolerantes”.

Claro que é sabido o que está por trás dessa onda cultural e já explicamos em outros textos porque essa ideologia pega tão bem entre os súcubos que representam uma parcela significativa da população, mas não vou retomar essa discussão, quero apenas tratar dos conceitos progressistas, como se fossem sérios, sem nenhuma quinta intenção por trás.

A vida é a maior força do universo, isso me parece ponto pacífico já que, sendo a entropia a força inexorável do nosso universo (não vou entrar nessa dividida das dimensões possíveis), uma força que desorganiza tudo levando sempre à condição de menor energia, e sendo a vida a única força que consegue se contrapor a ela, organizando e persistindo nessa organização frente a todas as adversidades, não pode haver dúvida sobre ela, a vida, ser o maior poder do universo conhecido.

Toda organização social se baseia nessa mesma lógica, ou seja, para que a sociedade exista tem que ser organizada, portanto deve administrar os comportamentos para harmonizar a convivência, tendo como premissa que os comportamentos individuais serão conflitantes e competitivos, o que deverá ser bem negociado para que essa sociedade se mantenha coesa.

Pois bem, as ideias progressistas, na organização social, tendem a defender a liberação cada vez maior dos indivíduos, mas sem nenhuma preocupação com os mecanismos que manterão essa sociedade íntegra, como se isso fosse natural e não precisasse de esforço consciente de organização. Defendem, em última análise, o caos.

Me faz lembrar os sonhos de anarquismo que acalentei por muitos anos de minha juventude.

Não fosse o trabalho persistente e permanente de ideólogos da desestruturação do sistema, abrindo caminho para uma nova hegemonia cultural, essas ideias nunca prosperariam, até porque, como disse antes, contraria todo o conhecimento e a sabedoria acumulada pela humanidade até hoje. A irresponsabilidade é tamanha que ninguém discute seriamente qual seria e o que fazer com essa nova cultura.

Uma das frases que se tornou o carro chefe dessa estratégia de desconstrução das estruturas sociais vigentes é: “O velho está desmoronando e o novo ainda não surgiu!”

Essa ideia de que estamos vivendo um movimento natural, decorrente da “evolução” da cultura, é vendida como se fosse espontânea, entretanto é fácil notar que a grande maioria da população não compactua com ela. Apenas os arautos do progressismo repercutem isso usando todo tipo de amplificadores de seu discurso. O mesmo ocorreu nos anos 1960 com o movimento hippie, que de espontâneo não tinha nada, foi fabricado pelos intelectuais da escola de Frankfurt, com Herbert Marcuse como o arauto da nova onda.

Quando, como no atual momento da vida política brasileira, a democracia revela o total desalinhamento entre esse progressismo e a vontade popular, esses mesmos “guias” respondem com o discurso de que essa massa reacionária está sendo dominada pelo estamento, que se trata de pessoas desinformadas e incapazes de tomar decisões por conta própria. Daí o paradoxo de defender a democracia, mas contestar todo resultado que não seja favorável a eles.


Como abdicar da responsabilidade sobre o futuro, mergulhando irresponsavelmente em um “novo” totalmente desconhecido e, pior, baseado na satisfação das necessidades fisiológicas, no prazer e em tudo que sabemos ser destrutivo e efêmero, além de levar a um estado de conflito, não eterno, posto que não pode durar, mas que durará até o fim da espécie e pela forma mais humilhante possível, por uma escolha voluntária dos seus indivíduos?

Isso contraria toda a sabedoria humana!

Não precisaria mais que isso para provar minha tese, entretanto há um apelo muito atraente às mentes que se encontram livres por estarmos vivendo uma fase de estabilidade prolongada, em que a maior crise que o indivíduo tem é a escolha do modelo de smartphone ou qual o melhor videogame.

Basta observar o fenômeno do cosplay2 nos Comic Com da vida para perceber a enorme carência de motivação desses jovens, que se dedicam de forma obsessiva ao culto dessas fantasias.

2 Cosplay é um termo em inglês, formado pela junção das palavras costume (fantasia) e roleplay (brincadeira ou interpretação). É considerado um hobby onde os participantes se fantasiam de personagens fictícios, principalmente de videogames.

Obras populares de muito sucesso retrataram o estado de desespero dessas gerações, como a BohemianRhapsody - clique para assistir - do grupo Queen, uma obra prima exaltando o drama do jovem daquela época.

Claro que, como tenho repetido constantemente, isso não representa a maioria da população, mas caracteriza exatamente a parcela que consegue amplificar suas ideias pelos meios de comunicação e se tornam os formadores de opinião e de cultura.

São exatamente as populações objeto das preocupações dos progressistas, as primeiras a se rebelar contra essas ideias. Eles vivem no limite, para eles só convence a verdade do náufrago, não têm tempo para diletantismos e elucubrações filosóficas.

Religiões e ideologias podem ter seu valor como filosofias, conjuntos de conhecimento, mas quando exercem o seu papel precípuo que é, indiscutivelmente, guiar seus discípulos por um caminho estreito de conhecimento, não passam de escapismo, subterfúgios para não encarar a enorme interrogação que se apresenta à nossa frente.

Não acredito em ideias finais, elas, mais cedo ou mais tarde se revelarão falhas, prefiro ser fiel às minhas dúvidas, elas sempre me darão pistas da trilha a seguir.

Nunca fui fiel a pessoas de ideias ou a ideologias definitivas, sempre soube que em algum momento elas iriam me trair. Como disse no DeMimPro6 – Vol. I, tento ser fiel aos meus conhecimentos e aos meus questionamentos, eles são o caminho.

Sempre questionei a torcida do quanto pior melhor. Quando o Collor foi eleito, nosso grupo, que tinha participado ativamente da campanha do PT, mostrava uma tendência fortíssima para a desestabilização do governo, já nos primeiros dias se falava em greves gerais, invasões etc. Quando eu percebi que sentiam certo prazer em ver o circo pegar fogo, só porque o nosso candidato não tinha vencido, percebi um forte indício que não queriam o melhor, na verdade estavam dominados por lideranças visivelmente irresponsáveis.

Ali começava meu desencanto, me lembro da frase que criei em 1990, no aniversário de 10 anos do PT: “Vamos verificar uma PMDBização acelerada do PT, a partir de agora!” Claro que ainda não acreditava que as teorias gramscistas do Chicão fossem dominantes, caracterizando o partido como essa facção criminosa que conhecemos hoje.

A seguir apresento uma análise da obra de Fernando Haddad, “Em defesa do socialismo”:


Para quem tiver curiosidade:
Gramsci- uma análise