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27/02/2021

Brasil tem pico de mortes... - clique para acessar o link


Tanto na média móvel de 7 dias como na de 21 verifica-se aumento na quantidade de óbitos em São Paulo, um dos estados com melhor controle da pandemia.

Praticamente todas as regiões do estado estão em alta.

Na comparação com a Itália, proporcionalmente à população, vemos que o controle da pandemia aqui foi mais efetivo,
mas estamos no pico e em alta, ao passo que a vacinação é uma interrogação.

Indicadores de taxa de transmissão indicam alguma melhora, mas, como se vê pela linha rosa (média móvel de óbitos), o crescimento é consistente.

Esta é uma crônica que gostaria de nunca ter escrito, me desculpem, mas, infelizmente, me vejo na obrigação de colocar aqui algumas ideias sobre a pandemia que se encontra, no final de fevereiro de 2021, um ano após termos registrado a primeira morte em território brasileiro, em seu pior momento.

Estão morrendo em nosso país o equivalente ao rompimento de quatro barragens de Brumadinho por dia, situação nunca vivida desde o início da pandemia.

Nosso sistema de saúde, seja público ou privado está acima do limite, hospitais de campanha desmobilizados e sem condições de recuperação em muitos casos por falta de pessoal habilitado, médicos e pessoal de atendimento esgotados, sem perspectiva de uma folga, até mesmo recursos como oxigênio já estão no limite, tendo esgotado em algumas regiões.

O governo federal numa cruzada de negacionismo e desqualificação de qualquer medida de cuidado básico só imaginável na cabeça de genocidas.

Só nos resta recorrermos a nós mesmos, tomar todos os cuidados que estiverem ao nosso alcance.

Quem tem que sair de casa, evite proximidade com outras pessoas, use máscara, se possível duas, conforme a nova recomendação da OMS, faça a higiene das mãos frequentemente e, chegando em casa evite carrear partículas para dentro, tirando os sapatos, máscara, roupa, tomando banho, enfim tomando todos os cuidados possíveis.

Quem pode ficar em casa, fique, faça suas compras por delivery e aguente a saudade, a carência, até que a pandemia acabe, não podemos morrer na praia e isso não é força de expressão (exceto a praia).

Por que todo esse discurso?

Em análise de risco a primeira coisa que devemos ter em mente é que todo risco tem duas dimensões, a probabilidade e o prejuízo.

Existem riscos de alta probabilidade e pouco prejuízo, exemplo pequenas batidas de carro, nesse caso, mesmo tendo uma alta probabilidade de ocorrência pode ser vantajoso não pagar um seguro por isso, ter um seguro só para perda total por exemplo sai muito mais barato.

Por outro lado existem riscos de baixíssima probabilidade mas de prejuízo potencial muito alto, exemplo incêndio da casa em que moramos, nesse caso, ainda que a probabilidade seja muito baixa, vale a pena pagar um seguro, afinal podemos ficar sem a casa.

Pois bem, no caso da COVID-19 estamos diante de um caso de risco cujo prejuízo é excepcionalmente alto, a morte ou a permanência de sequelas que ainda nem se tem conhecimento suficiente, enquanto a probabilidade está longe de ser pequena.

Se eu morrer, por exemplo, só fica a saudade, o que ainda é discutível, mas não sou mais responsável pela sobrevivência de ninguém, portanto a falta que vou fazer será só no âmbito dos sentimentos, mas algumas perdas, e nós já vivemos algumas, são irreparáveis, não só no âmbito sentimental, mas no da vida prática, no comprometimento do futuro dos que vão ficar.

O fato é que não sabemos como esse vírus chega até cada um, se pela circulação diária, para trabalho, escola ou compras, se pelo contato com alguém que frequenta nossa casa, a trabalho ou não.

O que está claro para mim é que esse vírus está em franca circulação e chega até nós de forma sub-reptícia. Só em nosso entorno mais próximo, já tivemos várias mortes e muitos casos de internação em UTI.

A situação do sistema de saúde coloca em risco até quem tiver uma crise de apendicite, já que não há disponibilidade de leitos.

Alguém disse que seria melhor deixar de comemorar o Natal passado para comemorar os próximos, muitos não acreditaram, estamos pagando caro por essa decisão e muitos não terão mais natais a comemorar.

Resumindo, eu não tenho nenhuma dúvida, vou continuar defendo o isolamento mais radical possível até que possamos ter a certeza de que o vírus não está circulando, pelo menos nessa intensidade.

O governo de São Paulo, com certeza o mais responsável na condução desse assunto no Brasil, está prevendo vacinar o conjunto da população até dezembro de 2021, como sabemos que os desejos de nossos governantes nem sempre são atingidos, não é difícil que isso se estenda para o ano que vem, portanto acho melhor não alimentarmos esperanças para tão logo.
O ritmo da vacinação no mundo, com raras exceções, está lento e no Brasil ainda mais, já que não há suprimento para toda a demanda.







Não vou ser eu que vou correr esse risco, por mim, por vocês e por todos.

A infectologia está longe de ser uma ciência exata e eles, os cientistas estão muito preocupados, razão de sobra pra que eu registre este depoimento.


Para quem tiver curiosidade, a pasta com todos os dados desde o início da pandemia. além de todas as minhas planilhas está no link abaixo:

https://1drv.ms/u/s!Ankb29-wbPVmg9terF7Al38fJW0kJg?e=XPqwR7

Por favor, quem tiver comentários ou críticas não deixe de colocá-los aqui para que todos possam compartilhar.
Muito obrigado!


Confrangimento
Porque de Hipocrisia o inferno está cheio!
25/05/2016
Existe um termo na língua inglesa que aceita muitas traduções: constraint. Uma delas seria constrangimento, mas, considerando a “riqueza” de nossa língua, essa palavra se presta mais a um contexto pessoal, comportamental.
Nós, engenheiros, quando precisamos designar uma limitação de movimento em uma estrutura, costumamos usar a palavra em inglês mesmo: constraint ou restraint (restrição). Como não vou falar de cálculo estrutural, preferi usar a palavra “confrangimento”, que também se aplica a uma restrição, uma limitação, pode ser empregada em qualquer sistema e, sendo menos usada, se presta melhor ao que eu quero dizer.
No Volume 1 escrevi um capítulo sobre Sistemas (pág. 18) em que alerto para algumas armadilhas da nossa percepção quando procuramos determinar a causa de alguma coisa. A proximidade e a sincronicidade podem indicar uma relação causa-efeito falsa, assim como a distância e o tempo podem mascarar essa relação.
Considerando o fato de “pensarmos que” agimos segundo nossas motivações, quando na realidade só agimos pelo entusiasmo (ver “Tesão & Taras”), vamos comparar diversos sistemas que são utilizados para gerir os processos de nossa sociedade pelos dois pontos de vista: Motivação e Entusiasmo.
A motivação, e mais ainda, o entusiasmo, são coisas que não se compram ou se trocam, elas simplesmente estão ou não estão presentes em nossas ações. Claro que podem ser estimuladas ou reprimidas, mas dificilmente de forma intencional, é muito mais comum ocorrer como resultado das circunstâncias.
Definindo melhor:
Motivação: conjunto de valores que elegemos como nossa intenção perseguir.
Entusiasmo: do grego enthousiasmós (en = dentro e thou ou theos = "deus") ou agir por inspiração divina, significando aquilo que nos dispomos a fazer com alma.
A motivação é o que nossa consciência escolheu para fazermos, mas só o entusiasmo é que comanda nossas ações.
Um dos melhores exemplos de sistema que falhou por não perceber essa distinção foi o comunismo, que apesar de prenhe de motivações, não possuía os elementos necessários para dar à luz o entusiasmo. Isso além dos malefícios conhecidos (inclusive em nossa história presente e passada) da concentração de poder por um longo tempo, com a acomodação e o surgimento da corrupção sistêmica.
Um sistema em que os agentes são seres humanos, só funcionará bem se contemplar ambos, motivação e entusiasmo, o que só ocorrerá se forem previstos os confrangimentos adequados. Exemplo: pagamentos por produção, ou seja, quem produz só recebe após apresentar o resultado do trabalho executado.

Caso contrário seremos como o Rei do Pequeno Príncipe, só poderemos ordenar o que os súditos estiverem dispostos a fazer.
O fato é que vivemos em uma rede de relações altamente enganosa, exatamente pela falta desses confrangimentos. Vejamos alguns casos, partindo do modelo, já abordado anteriormente, dos Planos de Saúde:

Acredito que todos estejam de acordo que o segundo esquema representa melhor a realidade, mas o que merece uma atenção maior é o primeiro esquema, que representa a forma como o gestor pensou ao modelar o processo.
Percebemos um alto grau de hipocrisia, ou seja baixo nível de crítica (eu sei, estou sendo repetitivo, mas é para reforçar) em relação a como as pessoas, que são os reais agentes do processo, iriam reagir.
O idealizador desse sistema contou demais com a motivação, com os valores de cada um e se deu mal.
Dizem os treinadores de atletas que, nos treinos, deve-se desenvolver o que eles chamam de "memória muscular", ou seja repetir à exaustão certos movimentos para que, na competição, os músculos como que reajam sem precisar do pensamento.
Da mesma forma a motivação é muito boa para o treino, mas na hora da ação, lembrando que a vida é, de fato, uma competição (ainda que se fale muito em colaboração), enfim, na hora do "vamo vê" é só o entusiasmo que vale.
Voltando ao caso dos Planos de Saúde, faltam os confrangimentos que ocorrem em outras transações comuns, como uma compra de feira, por exemplo.
Quando encaramos o feirante sabemos perfeitamente quanto dinheiro temos no bolso e o que queremos comprar, da mesma forma o feirante sabe quanto pagou pelos seus produtos e quanto precisa ganhar.
Nesse instante se dá uma transação submetida aos confrangimentos necessários, veja que não precisa haver cons't'rangimento, ao contrário, em muitos casos os envolvidos estão tendo prazer em participar daquilo, podendo desenvolver uma empatia positiva entre comprador e vendedor, afinal todos ali tem clareza dos interesses envolvidos e julga que os mesmos são muito justos.
No caso em questão, dos Planos de Saúde, quem paga não leva e quem recebe não entrega, ficando na mão de um gestor, alijado completamente do processo real, julgar os parâmetros das transações. Isso não só exige muita motivação como uma quantidade de informações impossível de se obter por vias indiretas.
Esse mesmo fenômeno se verifica nos processos de terceirização e nas sociedades por ações, em que há uma completa dissociação entre causa e efeito para os agentes das operações. Temos que lembrar que não fazemos negócios com empresas e sim com pessoas e que o sucesso ou fracasso dessas negociações dependem do relacionamento interpessoal, ainda que exista uma infinidade de controles e regras.
Agora vamos examinar como funciona a nossa democracia representativa:
 

Fica claro aqui a desconexão total e o enorme distanciamento entre os agentes: quem vota exerce um poder praticamente inócuo sobre o eleito, quem recebe não tem que prestar contas a quem o elegeu e quem financia eleições não está nem aí com as necessidades dos eleitores, exceto como eventuais acionistas de suas empresas. Vale a pena destacar que o bloco dos Financiadores não se altera nos dois esquemas.
É bom deixar claro que essas aberrações ocorrem seja qual for a ideologia vigente, haja vista as alianças espúrias feitas pelo nosso maior partido de esquerda com o objetivo de conseguir apoio do congresso que, além de não lograr o intento, conseguiram levar o país a sua maior crise, provocando um retrocesso de pelo menos 20 anos em nosso amadurecimento político.
Já citei mais de uma vez o prêmio Nobel de economia de 2015, Angus Deaton, e suas teses sobre as diferenças entre ricos e pobres no mundo. Uma das explicações para a ineficiência da ajuda internacional tem muito a ver com nosso tema:



Conforme Angus Deaton:
Benin, Burkina Faso, República Democrática do Congo, Etiópia, Madagascar, Mali, Níger, Serra Leoa, Togo e Uganda estão entre os países onde a ajuda ultrapassou 75% das despesas públicas por período nos últimos anos. No Quênia e Zâmbia, a ajuda internacional chega a um quarto e metade das despesas governamentais, respectivamente. Dado que grande parte da despesa pública é pré-comprometida e quase impossível de mudar no curto prazo, para esses países (e outros para os quais os dados não estão disponíveis) despesas discricionárias por parte dos governos são quase inteiramente dependentes de fundos de doadores estrangeiros. Como veremos, isso não significa que os doadores estão ditando em que os governos devem gastar, longe disso. No entanto, o comportamento de ambos, doadores e receptores, é fundamentalmente afetado pela existência e magnitude desses fluxos de ajuda.
Pedagogia da Dependência

Um dos aspectos mais importantes frisado pelo mesmo autor é o enorme bloqueio ao desenvolvimento que esses fluxos de ajuda representam. Primeiro pelo condicionamento a interesses alheios às reais necessidades desses povos, segundo pela manutenção de governos deletérios cuja sobrevivência se deve muito ao apoio das nações doadoras e, por último, mas não menos importante, pela acomodação que promove nesses países, praticamente impedindo o surgimento de ideias e soluções internas para os seus problemas.
Todos esses casos sofrem do mesmo mal: são concebidos através de relações indiretas*, não por casualidade, mas por puro comodismo ou conveniência, porque esse tipo de relação dilui responsabilidades e elimina os constrangimentos (aqui no contexto pessoal mesmo) entre as partes, entretanto eliminam também os confrangimentos necessários ao bom equilíbrio dessas relações.
Tudo isso já era sobejamente conhecido desde o mundo antigo, através dos grandes filósofos, donde se conclui, mais uma vez, que o conhecimento adquirido pela humanidade não só não é aplicado à organização de nossa sociedade, como é subvertido por ela, apenas e tão somente por comodismo.
Por quê insisto no comodismo? Eu concordo que, ao analisar a situação atual, percebemos muitas intenções deletérias, estratégias malintencionadas na origem, coisas que nos inclinam para a visão maniqueísta da realidade. Entretanto, se analisarmos a origem desses fenômenos, sob uma perspectiva histórica da construção da sociedade, veremos que foi o comodismo que nos trouxe até essa situação, não uma intenção especialmente diabólica.
Claro que temos que combater com muita energia os malintencionados, as organizações criminosas, principalmente as oficiais, mas se não tivermos clareza das origens desse “mal”, será como enxugar gelo, repetiremos tudo de novo.
O esforço para fazer do jeito certo é o mesmo de fazer do jeito aparentemente fácil, às vezes é até menor, mas a ilusão de ter encontrado um meio de driblar as dificuldades, queimar etapas, sempre vence.

* Ver, neste blog, “Paradoxos & Sofismas”, de 26/01/2016, sobre relações diretas e “O socialismo residual nos países de cultura patrimonialista como resultado do sentimento de culpa das elites dominantes”, de 24/07/2014, sobre a correlação “paternalismo” x “desenvolvimento”.

O mesmo comodismo está nos levando a um mundo de “direitos”!
Hoje só se fala em direitos, os taxistas têm direito à reserva de mercado, estudantes de escolas técnicas tem direito a merenda quente* e por aí afora. Ora, perguntem para alguém que estudou no Liceu de Artes e Ofícios se tinha “merenda”.
Não se trata de desdenhar das necessidades dos menos favorecidos, o problema é que não é assim que vamos resgatá-los. Também não podemos ignorar a importância dos movimentos sociais, apenas temos que enxergar um pouco mais fundo.
Na verdade só cada um é que pode encontrar os meios para vencer a sua luta pela vida, a única coisa pela qual todos devemos nos empenhar é pela garantia de oportunidade igual para todo mundo e isso não é merenda em escola técnica.
Estamos criando uma geração de pessoas que preferem gastar uma barbaridade de energia tentando garantir os “seus” direitos ao invés de construir o seu futuro.


* Apesar de sabermos que a maioria em qualquer movimento é massa de manobra e, neste caso, não termos ideia de quais os reais motivos ou quem está por trás dessas iniciativas.


Quando falamos de direitos temos que pensar em quem é o guardião desses direitos, e não me venham com xurumelas: leis; governo; algum grupo político; talvez uma ONG.
O guardião dos nossos “direitos” tem que ser “alguém”, não uma instituição, porque por trás das instituições estão pessoas e elas, não os papéis ou documentos, é que vão agir.
Ainda que se diga que o próprio indivíduo é o responsável pela defesa de seus direitos, é preciso saber de que forma cada um deve defender esses “direitos”. O que se vê são pessoas querendo exigir que alguém as adote, querendo delargar cada vez parcelas maiores da sua responsabilidade para governos, empresas etc.
É preciso um tanto de confrangimento para darmos o nosso melhor, qualquer um sabe disso. Não basta o sonho, é preciso ter clareza do que nos espera se fracassarmos, sem rede de proteção, porque, por mais que você confie no seu modelo de sociedade, na hora H a rede pode não estar lá.
Já falei inúmeras vezes que nunca temos o que merecemos, apenas o que conseguimos negociar. Já falei também da delargação desenfreada que promovemos em nossa estrutura social. Ainda que seja desejável uma sociedade bem estruturada, não adianta insistir no que já sabemos que não funciona.
Como no caso das emissões de carbono - sabemos que a redução a zero de forma abrupta seria o caos, mas não fazer nada vai levar ao mesmo caos - da mesma forma, abandonarmos as proteções do sistema de uma hora para outra levaria ao caos, mas precisamos pelo menos interromper o crescimento dessa irresponsabilidade e pensar, mesmo que seja para um futuro distante, um modelo em que cada um seja menos dependente das estruturas e mais responsável por seu destino.
Esse é o ideal anarquista que, como todo ideal, é utópico, porém mais realista do que utopias como o malfadado Welfare State ou, pior, o socialismo.
O ideal anarquista não vai se tornar realidade porque é inviável, mas uma sociedade norteada por esse ideal vai respeitar muito mais as liberdades individuais e será capaz de garantir a oportunidade para que cada um, de acordo com seu entusiasmo e sua capacidade, cresça e alcance seus sonhos.
As regras, leis, normas etc. não corroem apenas a ética de uma sociedade, mas tem efeito pedagógico, influenciando na forma de pensar dessa sociedade. Um governo paternalista induzirá um ambiente cada vez mais reivindicatório, e isso enquanto funcionar, uma vez que, dadas essas mesmas características, não conseguirá manter o ritmo da economia em consonância com o crescimento das necessidades da população, provocando a ascensão dos seus opositores. O caso mais preocupante desse tipo de situação é o da China, cujo colapso anunciado já começa a dar seus sinais.
Esse é mais um dos paradoxos com os quais temos que lidar: quanto mais temos, mais queremos. Inversamente, quanto maiores os desafios, mais nos empoderamos.

Estados paternalistas formam sociedades de dependentes.
Por quê herdeiros fracassam? Por não terem experimentado nem o sofrimento de galgar encostas, nem a dor de despencar de abismos.
A realidade sempre vai ser menor que as expectativas, daí a insatisfação crescente.
SATISFAÇÃO = REALIDADE - EXPECTATIVA
Ainda conforme Angus Deaton, nossa percepção de "satisfação" varia conforme nossos ganhos se multiplicam.
O Instituto Gallup pediu que as pessoas ao redor do mundo avaliassem suas vidas imaginando uma "escada da vida" com onze degraus; o último degrau, 0, é "a pior vida possível para você", enquanto 10 é "a melhor vida possível para você." Cada entrevistado foi solicitado a indicar "em que degrau da escada você diria que você, pessoalmente, sente que está neste momento?" Podemos utilizar esses dados para ver como os países se saem em relação uns aos outros e, em particular, se os países de renda mais elevada se saem melhor sobre esta medida.
...
Quando pensamos sobre o dinheiro, pensamos em termos de dólares, mas também pensamos em termos percentuais. Nas raras ocasiões em que meus colegas de Princeton discutem seus salários uns com os outros, eles são propensos a relatar que um teve um aumento de 3%, enquanto outro teve 1%. De fato, o deão é mais susceptível de sinalizar a sua vontade ou desagrado através do tamanho do aumento percentual do que através da dimensão do aumento em dólares.
... diferenças percentuais iguais de renda produzem iguais mudanças absolutas na avaliação de vida. Em média, se passar de um país para outro, cuja renda per capita é quatro vezes mais elevada, a nota de avaliação da vida vai passar por cerca de um ponto em uma escala de zero a dez, e isso é verdade se estamos nos movendo entre países pobres ou os ricos. E só para remover qualquer mal-entendido: sim, há muitas exceções, e muitos países apresentam resultados maiores ou menores do que poderíamos esperar, dados os seus rendimentos nacionais. Nem sempre é verdade que todos os países ricos têm avaliações de vida mais elevadas do que todos os países que são mais pobres; China e índia são dois exemplos notáveis. Mas, em média, para todos os países, ricos ou pobres, uma diferença de quatro vezes no rendimento vem com um aumento de um ponto na avaliação da vida. 
O problema de lidar com a satisfação do povo tentando distribuir benefícios é secular, não só no Brasil, mas na maioria do antigamente chamado "terceiro mundo".
Tivemos Getúlio, Juscelino, Jânio, Sarney, Collor, FHC, Lula e agora Temer, todos representando grandes "guinadas", "qui nada" isso sim, foi sempre mais do mesmo. Sempre com a retórica de ajudar os pobres, são, sem exceção, pretensos tutores da nação.
Pior do que o corrupto é o bem-intencionado. Uma política de distribuição de renda (indiscutivelmente necessária, aliás) sem uma gestão eficaz, sem compromisso com o equilíbrio financeiro do estado e, principalmente, que utilize os mesmos expedientes de corrupção arraigados na política, além de desestimular a atividade econômica, abala o que há de mais importante em uma sociedade: a Confiança! É por isso que o inferno puLULA com eles.
Novamente temos a situação de como enfrentar um problema tão grande que parece insolúvel. Na minha opinião a melhor estratégia é: primeiro tomamos as medidas necessárias para que o problema não aumente e, em seguida, agimos para reduzi-lo no ritmo que for possível. A única coisa inaceitável é não fazer nada.
Descartes que me desculpe, mas
 
 
"Volo, ergo sum!”,
depois vem o “Cogito”.

Queremos antes, compreendemos depois

O que quero dizer é que existem vários graus de desvio em relação ao que consideramos um comportamento ideal, desde aqueles que todos nós cometemos e consideramos “absolutamente perdoáveis”, passando pelos que julgamos indesejáveis, até os “imperdoáveis”. Se sabemos que é assim porque continuar criando sistemas sem levar isso em consideração.
Um bom sistema deve primeiro admitir que agimos pelo entusiasmo, depois ser estruturado de forma a reduzir ao mínimo os intermediários nas relações, isso significa menos regulamentos, leis, regras.
Quando isso não for possível, estabelecer restrições (confrangimentos) que induzam ao melhor equilíbrio entre as partes e prever fiscalização e punição apenas para os desvios mais graves.
É bom lembrar que ética é o que há naturalmente em qualquer sociedade. É um erro pregar um comportamento ético quando na verdade estamos querendo que as pessoas ajam conforme aquilo que acreditamos ser o melhor, isso é moral.
Ética é o que há no jogo do bicho, na máfia, em um grupo de crianças brincando, em uma pelada de fim de semana. Ou seja, é aquilo que dá coesão ao grupo. Quando a ética é desrespeitada o grupo se desfaz ou, no mínimo, se modifica muito.
Uma sociedade é formada em torno de uma ética e a nossa não é diferente, se não estamos satisfeitos com o comportamento de tantas pessoas é, em grande parte, porque estabelecemos muitas regras, muitos direitos, diminuindo o espaço da conquista de cada um e da consciência que as responsabilidades pelo individual e pelo coletivo são de cada um de nós.
Cada regra formal extermina com uma infinidade de normas éticas. Exemplo: ao estabelecer um salário mínimo, isentamos o empregador da responsabilidade com a qualidade de vida do seu empregado.
Uma sociedade justa nunca propiciará a todos os mesmos benefícios e sim as mesmas oportunidades. A competência e a capacidade de cada um negociar com a vida sempre serão diferentes e levarão a resultados diferentes, afinal já dizia meu avô: - A aranha vive da teia que tece!
De qualquer forma, todos os problemas sempre terão solução.
Os “Uber” da vida vão vingar, assim como outras formas de relação via internet, as bicicletas vão ocupar o espaço dos carros, as redes sociais vão continuar dominando a comunicação, o capitalismo vai continuar sendo a nossa forma de organização etc. etc.
Aliás, o caso dos taxistas x Uber é interessante porque revela um pouco da natureza de nossa sociedade:
  1. As manifestações dos taxistas não contam com o apoio da maioria da classe, aliás verifica-se, até pela violência contra colegas, que se trata de uma minoria. Os sindicatos não representam mais a classe e sim um grupelho político cujo único objetivo é manter o poder (tal e qual na "Democracia Representativa").
  2. O Uber, assim como outros aplicativos de oferta de serviços, significa a "comoditização" do serviço, ou seja, a democratização do "bem", ainda que explorado por um grupo econômico, mas sem reserva de mercado, o que quer dizer que qualquer um pode entrar na competição, como já é o caso da 99Taxis e do Waze que vão oferecer o mesmo serviço do Uber.
  3. Os taxistas representam a parcela "regulamentada" da questão e o "Uber" a democratizada. Essa mudança só está sendo possível devido à ausência de regulamentação que a internet propicia e ao sistema de livre iniciativa.
Isso significa que os mais fortes vão continuar por cima e a economia vai girar, por mais que esperneemos, como se nada tivesse acontecido, independente de quanto gostemos disso ou não, simplesmente porque é natural que seja assim.
Será que ficaremos satisfeitos com as soluções que nossos problemas vão encontrar?

Alguém vai dizer:
 E os exploradores, intolerantes, sectários? É contra isso que estamos lutando!

Claro, todos estamos de acordo que algo precisa mudar, o problema é que se continuarmos pensando que o mundo está como está porque "eles" são o problema, vamos continuar correndo atrás do nosso próprio rabo. 

Temos que continuar combatendo, sem dúvida, principalmente os sectários, para isso precisamos, nós, deixar de sermos "sectários".



Se não encararmos o fato de que nossa natureza é o problema, não vamos a lugar nenhum. Ou pensamos nossos sistemas tendo em conta que somos o que somos e que não existe o "lado negro da força" ou continuaremos nos digladiando por nada.

L i v r a i - n o s  d o  m a l  II 03/05/2015

Opinião líquida…

O último livro que ganhei ㄧ da Patrícia, mãe da Olívia e do Nilo (ah, é a esposa do Murilo também) ㄧ foi muito inspirador: Modernidade Líquida, Zigmunt Bauman.
Trata do “ponto de mutação”, da “era da incerteza”, da “insustentável leveza do ser" e outras expressões (e obras importantes, inclusive) que tentam explicar a imensa bagunça que virou nossa cabeça, a partir do momento que nos livramos dos dogmas e estruturas (familiares, religiosas, políticas etc.) que davam sustentação às nossas decisões.
Uma das coisas mais esclarecedoras para mim foi a conclusão de que fenômenos como o Estado Islâmico são mais “normais” do que parece.
Ao longo da história desta nossa humanidade ‘velha de guerra temos inúmeros exemplos desse tipo de motivação grupal: o nazismo, o fachismo, o comunismo, ditaduras de direita, como o governo militar de 64, ou de esquerda, como o Chavismo, etc. etc.
Menos institucionalizados, temos: Sandinismo na Nicarágua, Sendero Luminoso no Peru, FARC na Colômbia, Tupamaros no Uruguai e, mais recentemente, o Boko Haram na Nigéria, o Estado Islâmico no Iraque, Síria, hoje acantonado no Iêmen...
Trata-se do que Bauman descreve como movimentos auto-alimentados, cujo único motor é a sua própria perpetuação, necessária para dar a seus membros a segurança de “fazer parte” de algo consistente e permanente.
É interessante o fato de que esses movimentos precisam do inimigo, mais até do que de aliados. Eles ‘vivem’ da existência do inimigo.
Daí a sua semelhança com sistemas policiais - muitos até os denominam “sistemas policialescos” - já que não existiriam polícias se não existissem os transgressores da lei (os inimigos).
As religiões, a partir do seu objetivo básico que é Reunir Legiões, sempre usaram esse apelo, algumas servem até hoje como motivação para guerras sangrentas, muitas vezes entre povos da mesma etnia e quase da mesma cultura, inclusive o famigerado Estado Islâmico e tantos outros.
A necessidade da existência do inimigo é tão importante para a estabilidade desses grupos que vários Papas, inclusive o atual, reafirmaram a existência real do demônio: O Papa Francisco afirmou que “o demônio não é uma fábula; ele existe, e os cristãos não devem ser ingênuos diante de suas estratégias”.
Mas, por quê surgem esses movimentos? Qual o ‘estressor’ - para usar um termo da psicologia - que origina esses fenômenos sociais.
Não encontraremos essa resposta tentando analisar os ‘inimigos’ eleitos por esses movimentos, uma vez que, muitas vezes, são apenas e tão somente bodes-expiatórios (coitado do Lúcifer), escolhidos por algum malfadado casuísmo ou por uma estratégia dos líderes que, explorando o medo de seus seguidores, “inventam” estórias de terror para dar sustentação ao seu poder. Precisamos pesquisar em camadas mais profundas do funcionamento de nossa sociedade e, quiçá, de nossa psiquê.
Como não podia deixar de ser, vou tentar! Começando de um pequeno retrospecto:

Liberdade, Confiança e Coragem
A      t r í a d e      d e      o u r o !

Começo do começo, partindo da estrutura basilar para a existência humana: Liberdade, Confiança e Coragem.
Acho que a humanidade foi muito longe em seus sonhos de liberdade ‘grátis’. Continuamos em busca de soluções definitivas, do ‘santo graal’, da ‘pedra filosofal’ etc. Esquecemos dos ensinamentos dos nossos maiores filósofos, mostrando que felicidade não se alcança, mas se vive no processo de busca, que os caminhos mais confortáveis são, invariavelmente, os que levam ao ‘inferno’ etc.
Nessa convicção ㄧ de que chegaremos a um estado de prazer e segurança plenos ㄧ construímos uma estrutura que, sem que nos déssemos conta, excluiu a grande maioria do tecido social “são”, empurrando legiões de pessoas para a insegurança e para a carência, em alguns casos nações inteiras ou mesmo continentes.
Esse é o caldo gerador das ideias e grupos cujo motivo real é criar um núcleo de união, de agrupamento, quase como homens da idade da pedra que, ainda ignorantes dos fenômenos naturais, se encolhiam juntos em cavernas para sentirem-se mais confortados durante as tempestades ou outras ameaças.
Tudo isso em função de nossa ilusão de ‘paraíso terreno’. O problema é que, ainda que houvesse consciência desse problema e que estivéssemos dispostos a mudar nosso estilo de vida, perdemos a capacidade de viver a vida como deveria ser vivida: assumindo a responsabilidade sob todos os aspectos da preservação de nossa liberdade, construindo, com coragem, um ambiente de confiança mútua, sem hipocrisias nem ilusões de ‘perfeição’.
Avançamos demais neste caminho, da construção tecnológica, da especialização extrema das tarefas, da interdependência entre todos e dos sistemas sociais e políticos, de tal forma que qualquer correção de rota parece impossível. Será?
O futuro a Deus pertence, já dizia a VÓlinda, e, de fato, tudo pode acontecer: tendências se invertem, acidentes de percurso ocorrem. Acho que devemos tentar entender esse processo a partir de nós mesmos:

Metáfora Peripatética

Gosto da metáfora da caminhada ou do caminhar. É completa para representar as atividades da vida e fácil de experimentar.
Já estabelecemos que a Liberdade é o maior anseio, a Coragem o instrumento e a Confiança o caminho.
Também relacionamos a Liberdade com a Respiração, a Confiança com o Ritmo e a Coragem com a Força.
Um aspecto a ser percebido nessa experiência é que quando precisamos da Força (ou Coragem), corremos grande risco de esquecermos o Ritmo (Confiança) ou a Respiração (Liberdade) ou os dois.
O Ritmo ou Confiança, sempre ajuda na preservação da Respiração ou da Liberdade, entretanto quando um obstáculo exige o uso da Força ou da Coragem, é como se tudo se resumisse a vencer o desafio que se apresenta, a passar aquela fase e, nesses momentos, podemos colocar em risco a Confiança (Ritmo) e a Liberdade (Respiração).
É preciso perceber de forma muito clara que os obstáculos, sejam eles acidentes no caminho ou conflitos de interesses na vida em sociedade, sempre existirão e que atitudes são apenas isso: atitudes e como tal devem ser tratadas.
Não há sistema que sustente uma sociedade harmoniosa e não há divisão de tarefas que garanta nossa liberdade, livres do ônus da responsabilidade individual.
Ao nos colocarmos na tarefa de melhorar o mundo, corremos o risco de incorrermos no mesmo erro dos radicais de que falávamos. Vejam o caso do PT: em 35 anos, pouco mais de uma geração, passou de uma agremiação de pessoas altruístas e preocupadas com a construção de um país justo e descente, para algo como uma Igreja Universal, em que a arrecadação, a manutenção do poder e as benesses de seus comandantes substituiu quase totalmente qualquer objetivo mais nobre.
Hoje, tanto o PT como outros partidos sul-americanos, carecem de um inimigo a quem combater, ora viram suas baterias para o nosso grande irmão do norte ora para o sistema econômico internacional, mas no fundo o que lhes dava sustentação eram as ditaduras que os precederam.
Mudanças são necessárias, mas não no estado, nos governos e sim na nossa forma de viver. Claro que não vamos corrigir as imensas desigualdades existentes entre classes e povos, mas, como no caso da corrupção, o comportamento de cada um constrói ou destrói o tecido social e a confiança e esse é o único papel que podemos assumir.
Acabar com a corrupção(1) é impossível, ponto, entretanto, é possível colocá-la sob controle de forma a não prejudicar demais o clima de confiança necessário para continuarmos sendo uma sociedade.
Da mesma forma, não podemos acabar com a especialização da sociedade, assumindo imediatamente o trabalho dos médicos, dos policiais, dos lixeiros etc. etc., mas o que eu acredito é que, tendo consciência da inadequação de nossa forma de viver atual, podemos administrar melhor nossas vidas e, quem sabe, ir, aos poucos, promovendo a mudança.
Trata-se de olhar a essência das coisas, não apenas seus aspectos superficiais e práticos do dia a dia. Encarar de frente os deveres e repensar os direitos:

(1) Sobre a corrupção no Brasil, veja o artigo neste link: Cuidado, é cilada

Direitos e Deveres

Costuma-se acreditar que não DEVEMOS ser submissos e temos o DIREITO à independência. Ora, camaradas, qualquer um com mais de 16 anos já percebeu que nunca temos o que ‘merecemos’, apenas o que ‘negociamos’, e se não percebeu ainda é porque vive no mundo das ilusões.
A matemática comportamental já demonstrou que a forma como expressamos uma idéia faz toda a diferença. Ao formular nossa vida financeira colocando os Gastos à frente da Poupança, percebemos que nunca sobra nada!
Relembrando:
se encaramos nossa vida financeira pela fórmula
“Ganhos – Gastos = Poupança”
nunca teremos nada para guardar, entretanto, se invertemos o ponto de vista, adotando a fórmula
“Ganhos – Poupança = Gastos”,
milagrosamente começamos a poupar e. ainda assim, conseguimos viver sem privações e gozando muito melhor o que temos.
Da mesma forma, se invertermos a lógica do primeiro parágrafo, admitindo que não temos o DIREITO de ser submissos e que temos o DEVER de ser independentes, estaremos mudando radicalmente nossa atitude perante a vida e estaremos assumindo o que nunca deveríamos ter abdicado: a responsabilidade plena por nossos destinos!
  1. Você não pode criar prosperidade desalentando a iniciativa individual;
  2. Você não pode fortalecer o fraco, debilitando o forte;
  3. Você não pode ajudar aos pequenos, esmagando os grandes;
  4. Você não pode ajudar o pobre, destruindo o rico;
  5. Você não pode elevar o assalariado, pressionando a quem paga o salário.
  6. Você não pode resolver seus problemas enquanto gaste mais do que ganha;
  7. Você não pode promover a fraternidade da humanidade, admitindo e incitando o ódio de classes;
  8. Você não pode garantir uma adequada segurança com dinheiro emprestado;
  9. Você não pode formar o caráter e o valor de um homem cortando-lhe sua independência e iniciativa;
  10. Você não pode ajudar aos homens realizando por eles permanentemente o que eles podem e devem fazer por si mesmos.
DECÁLOGO DE ABRAHAM LINCOLN
Vamos um pouco mais além, o que quer dizer ser bom ou mau?

O silêncio dos inocentes
Inocentes?

O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.
Martin Luther King
Volto à frase que se tornou famosa através do célebre líder negro. Com origem na filosofia de Heidegger, foi deturpada intencionalmente, como se fosse uma exortação, um chamado às consciências.
Ora! O líder bem intencionado, só fez aumentar muito a carga de culpa (não sei porque, lembrei da igreja católica) sobre os ombros daqueles em quem ele diz querer depositar sua confiança.
O fato é que os ‘silenciosos’ não o são por serem bons, mas por serem simplesmente acomodados e, na sua maioria, apenas acomodados.
Não digo que alguns não sejam ‘bons’, mas o que é ser bom?
Se agir é interferir na realidade, mudar alguma coisa, alterar o estado do universo à sua volta, então não se pode ser apenas bom, pelo menos não na visão de todos os ‘outros’.
Sempre que algum fenômeno ocorre, afeta a vida de cada um de forma diferente: alguns perceberão de forma positiva e outros de forma negativa. Não há como ser bom para todos.
Daí, sempre que a percepção de ‘bondade’ é generalizada, é porque está sendo encarada como “... ele nunca fez mal a ninguém!” É o caso dos que nada fazem, caso contrário, não haverá unanimidade: alguns aplaudirão, enquanto outros criticarão.
Esses ‘bons’ da frase do Martinho são os que vão lotar o inferno. Os demais são os que gritam, fazem e afetam o mundo de alguma forma.
Em outras palavras: se deixou de ser silencioso, deixou de ser bom. Por isso os candidatos mudam ao ser eleitos, nossos colegas de trabalho se transformam ao assumir uma chefia etc.
A evolução da consciência não pode ser à custa de hipocrisia e falsas esperanças, temos que encontrar formas de convivência mais pautadas pela realidade e não incentivarmos a indignação pela indignação. O que fazer então? Seguindo o raciocínio:

Amenidades profundas

Há muita divagação sobre as transformações da sociedade humana, embora sempre se trate de uma forma específica de sociedade, qual seja a auto-intitulada judaico-cristã ocidental e, eu acrescentaria, americana.
Essa é minha primeira objeção a essas análises. Se observarmos de forma menos superficial veremos que o mundo hoje hospeda uma infinidade de agrupamentos humanos, com costumes, regras e valores muito diferentes entre si, apesar da enorme pressão que a supremacia econômica exerce sobre a cultura e os hábitos de um modo geral.
Mas, ainda mais discutível é o fato desses analistas se aterem a detalhes complexos, como os tipos de tecnologia que utilizamos, como exercemos a política, quais os comportamentos da moda etc.
Tratam do assunto de forma tão séria que chega a ser ridículo, afinal não podemos esquecer que tudo no mundo é burla. Alguém já disse: “o mundo é uma comédia para os que pensam, e uma tragédia para os que sentem”. Prefiro pensar e simplificar(2).
O fato é que só estamos aqui para aprender!
O quê? Qualquer coisa que nos pareça suficientemente estimulante, desde física quântica até enologia, desde coisas práticas às mais fúteis, não importa, nossa ânsia de viver é a mesma de aprender!
Por quê? Porque é o que o gene exige! O gene, vale dizer, não é o “ente” misterioso que lhe trouxe a este mundo, ele é você!
Qualquer esforço só é válido para evitar o sofrimento que, é bom lembrar, não é dor nem privação, nem qualquer outro fenômeno real, mas a forma como percebemos as coisas, é um sentimento que pode ser administrado através de nossa mente.
A vida é um jogo e, como todo jogo, só vale enquanto está sendo jogado, quando acaba, acaba e pronto. Perder ou ganhar carece de sentido porque quando acaba, acaba!
Tudo acontece enquanto se joga, não antes nem depois: castigo, recompensa, tristezas, alegrias, dor, prazer, mas principalmente a promessa de algo que nos move como competidores.
Se o gene, o universo, Deus ou qualquer outra força tiver planos para depois do jogo, nunca saberemos, só podemos jogar!
Estamos condicionados por algumas coisas, que podem ser resumidas a um punhado de fatos:
  1. O que fazemos?
  • estamos sempre lutando entre liberdade e segurança;
  • a coragem define quem irá abrir mão da segurança pela liberdade e
  • a grande maioria não tem a disposição necessária para fazer essa escolha
  • ponto.
  1. Por quê fazemos?
  • em última análise por causa da enteléquia que nos move desde antes do nascimento;
  • atendendo às ordens do gene que, pasmem, é você mesmo, e
  • quando possível, nossas convicções.
O fato é que, como Xicó: Não sei, só sei que é assim!
O que posso dizer, com certeza, é que:

(2) Para relembrar veja o link: Você merece, particularmente o capítulo “Tesão & Taras”

A vontade vem antes!

Volto à tese do Gênesis: ‘no princípio era o verbo’.
Essa frase poderia muito bem ser: no princípio era a vontade (enteléquia).
O ato de concepção da vida é um ato de pura vontade: os espermatozóides dão a própria vida pela chance de sobreviver em um novo ser. Não há forma mais pura de determinação, de vontade.
Essa vontade imensa no ato da criação foi sua, era a sua potencialidade se expressando e agindo, portanto, em resumo: se você não quisesse muito, certamente não estaria aqui e, se você está aqui, a responsabilidade pela sua experiência é sua, só sua.
Não discordo que a vida em sociedade exige um compromisso entre todos e cada um de nós (afinal somos ‘nós’ de uma mesma rede), que dependemos em grande medida de ‘outros’ para a viabilização de nossa vida, mas isso não significa que podemos abdicar da responsabilidade pelo nosso destino.
Infelizmente vivemos em um tempo de ilusão. Certas iniciativas políticas, como o welfare estate, e pensamentos filosóficos, como o marxismo, além da super especialização da nossa sociedade, nos induziram uma sensação de que sempre haverá algum poder maior para nos atender e proteger - isso sem falar das muitas religiões.
Desde pequenas coisas como forçar demais um objeto e praguejar quando ele quebra, até ficar se lamentando porque o governo não dá as condições necessárias para o que julgamos ser uma vida descente, tudo tem a ver com essa ilusão, de que algo ou alguém é responsável por nossa felicidade.
Delargamos nossa saúde, educação e segurança para outras pessoas e instituições como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.
Os chamados Mitos de Retorno, como a ressurreição de Cristo ou o retorno do Buda, estão bem descritos na Jornada do Herói (monomito), do antropólogo Joseph Campbell.
Esse mito descreve uma jornada cíclica. Significa ir ao paraíso e ressuscitar ou retornar por amor aos que ficaram, ir ao inferno resgatar alguém e retornar mais poderoso, depois de viver uma experiência limítrofe, algo que antes pareceria impossível de se fazer.
Se a enteléquia pode ser considerada a vontade de nascer, uma ânsia por conhecimento, a jornada do herói seria a enteléquia2 = vontade de renascer mais forte, tendo bebido na fonte do conhecimento.
O mito da expulsão do paraíso não deixa de ser a jornada do ser humano, enfrentando a autoridade divina, comendo do fruto da árvore do conhecimento e pagando o preço, sofrendo as vicissitudes da vida real.
A jornada do herói trata de uma aventura que ocorre muito mais dentro do que fora da gente, mas que não se consuma enquanto não fazemos a jornada real, no aqui e agora, desafiando os medos, enfrentando o desconhecido.
Um ditado antigo diz: “É pelos dedos que entra o ofício!” Eu diria que é mais ou menos por aí.
A experiência não traz apenas alguma nova habilidade, ela transforma, constrói, completa nossa estrutura básica, nossa infra-estrutura.
Certa ocasião, falei pra um do6: - Precisa ralar muito pra chegar onde você quer! Ao que ele, um pouco espantado, me perguntou: - Por que você acha que eu preciso ralar?
A pergunta já dá a resposta: se você não sabe porque precisa ralar é porque está precisando muito.
A única missão que temos é evoluir (aprender), daí a maior tentação é procurar os caminhos fáceis ou automáticos que nos desviem dessa evolução.
Mas, como eu disse a um jovem colega, que se lamentava por estar ainda muito longe da aposentadoria: — Pois é, infeliz ou felizmente, 40 anos demoram 40 anos para passar.
Qualquer tentativa de driblar o auto-desenvolvimento fatalmente será frustrada pelo descompasso entre nosso estágio de preparação e os desafios da etapa.
Por outro lado, é um erro imaginar que essa evolução pode ser individual, porque a individualidade é uma ilusão criada pelo ego, somos parte de um todo absolutamente interligado.
Mas, não é a dedicação a um projeto pessoal que impede a evolução, é a especialização (leia-se ‘terceirização’), na sociedade moderna, que afasta do que interessa, do caminho do verdadeiro conhecimento.
Ainda que nos retiremos ou nos afastemos do grupo para uma saga evolutiva, sempre teremos a ânsia de voltar para compartilhar, uma vez que o isolamento exige muito esforço, como se fosse um tendão que esticamos mas que não se rompe, puxando-nos de volta para a nossa realidade comum.
Uma penúltima (como no caso das cervejas) consideração:

Juízo final

Quando nos sentimos injustiçados precisamos de algum alento, algo que nos dê a esperança de ver a justiça acontecer - pelo menos a ‘justiça’ que julgamos ‘justa’.
Nessa hora a ideia de “Juízo final” é muito atraente. Como dizia meu tio Daniel: – Deus tá vendo!
Meus caros, a justiça, tal como a imaginamos, não passa de uma ilusão criada por nós.
A única justiça real neste mundo espaço-temporal em que vivemos(3), é o equilíbrio inexorável da entropia, em outras palavras, a ‘lei do mais forte’.
Lamento informar que as pessoas sem escrúpulos e poderosas vivem melhor que as escrupulosas e fracas. E nada nem ninguém vai alterar ou corrigir esse estado de coisas.
O que distingue um grupo do outro são os valores e esses valores são tão determinantes quanto maior for a convicção com que são encarados. Por isso julgo ser de fundamental importância rever constantemente nossas convicções, entendê-las o melhor possível para consolidá-las ou alterá-las, mas, sejam quais forem, mantê-las como sustentação de nosso modo de vida. Afinal, se estamos aqui, foi porque assim decidimos em algum nível existencial, então: quem pariu Mateus que o embale!.
Cabe a cada um de nós administrar nossa posição na cadeia alimentar da sociedade e viver o melhor que pudermos.










(3) Qualquer outro (mundo) só pode existir em nossa imaginação, chamemos de intuição, vidência ou qualquer outra ideia.